

Poderia ser uma ironia do Destino? O herói hitchcockiano nada tinha a ver com Alfred Hitchcock! Alfred Joseph era tímido, inseguro e pouco ágil. Não era um conquistador. A sua vida não era atribulada porque o ambiente doméstico dentro da sua casa era familiar e rotineiro. Vivia com a esposa, tinha uma filha e um ou dois cães… Era um homem de família como tantos outros. Gostava de se entreter com hábitos de pessoa pacata e tranquila. Nada o aproximava da imagem dos heróis dos seus filmes de espionagem!
Alfred Joseph bem gostaria de se ver como o herói das intrigas internacionais que construiu. Se tinha demasiada mágoa de ser gordo, pesado e corpulento, talvez Donald Spoto ou outro dos seus biógrafos nos pudesse responder com convicção.
O herói hitchcockiano nunca era gordo, antes pelo contrário. Tinha charme e encanto junto das senhoras. Não era desajeitado nem deselegante. Isto fica-se a dever a imperativos relacionados com os cânones da época. Mas também a estipulações sistematicamente definidas pelo realizador.
E Alma Reville, a sua esposa? Como se sentiria ela perante a imagem das mulheres tão belas com quem o marido trabalhava? Como conviveria com a secreta paixão de Alfred Joseph por Grace Kelly? Era uma obsessão profissional mas não deixava de ser uma obsessão…
A Mulher é um ser perigoso… Mas talvez Alma fosse serena e pacífica. Não como as mulheres manipuladoras dos filmes negros de Hollywood. A Mulher pode muito bem revelar-se um ser perigoso – Parece Hitchcock sussurrar-nos enquanto vemos alguns dos seus filmes. Por isso, muitos o acusam certa ou erradamente de uma nítida misoginia.
Talvez Hitchcock receasse as mulheres. Durante a sua infância e juventude quase não tinha amigos, brincava sozinho e namoradas não lhe eram conhecidas. Não tinha figura de galã. Terá escrito: “Sou apenas um daqueles infelizes que podem engolir acidentalmente uma castanha de caju e engordar 15 quilos.”
É natural que o universo feminino lhe fosse estranho e não se sentisse confortável entre as mulheres.
Como consequência disto, ou não, as mulheres hitchcockianas surgem frágeis mas perigosas. Podem mesmo não ser belas mas insípidas e de aspecto desinteressante. Como Jane Wyman em “Pavor nos Bastidores” (1950), Barbara Bel Geddes em “Vertigo” (1958) ou Barbara Harris em “Intriga em Família” (1976). Podem ser horríveis e repelentes: Em “Rebecca” (1940) encontramos Mrs. Danvers (Judith Anderson) e Mrs. Van Hopper (Florence Bates); em “Frenzy” (1972), os exemplos de mulheres feias são muito variados.
As mulheres são uma tentação, uma causa de culpa e uma abertura para o universo do perigo e do abismo. Hitchcock terá preferido escolher para si uma companheira para a Vida. Na revista McCalls de Março de 1956, ele escreveu um artigo intitulado “A Mulher que Sabe Demais”. Aí ele descreve os seus sentimentos por Alma.
Refere ele: “O que Alma tem de mais extraordinário é ser normal. Ela sabe muito – demais – a meu respeito. Mas não fala. Sabe que, na intimidade, em vez de ler livros de mistério, costumo ficar desenhando armários para a casa (…) Ela sabe que compartilho o seu gosto por uma vida simples. Além de guardas, o que mais me apavora é ficar sozinho. Alma também sabe disso. Simplesmente gosto da presença dessa mulher por perto, mesmo que esteja lendo.”
Seria a mulher ideal que Hitchcock encontrou na sua vida demasiado submissa e reverente? Ela participava na construção de muitos filmes de Hitchcock mas raramente o seu nome aparecia na lista de créditos de cada película. Certamente, Alma era pacífica. Alfred Joseph não teria medo dela. Por isso a amou do seu jeito próprio durante mais de 50 anos.
Na verdade, Alfred Hitchcock bem poderá ter deixado rotular-se de um certo modo. Se era esperado que criticasse a publicidade, os actores e a televisão ( 3 pontos de constantes criticismos seus) também era previsível que zombasse das mulheres e que os seus filmes fossem de suspense.
A bem dizer, acho a mulher hitchcockiana muito bela e interessante. Sedutora e incrivelmente elegante. Mas é preciso cuidado com o amor perigoso e tentador de uma dessas loiras com interesses secretos (como Kim Novak, Eva Marie Saint ou Tippi Hedren; Madeleine Carrol, Joan Fontaine e Ingrid Bergman…) Cuidado com elas, homens deste planeta… Se prezam a vossa riqueza e a vossa sanidade mental, não se deixem tentar por loiras misteriosas...
Há muitas por aí e nos nossos dias podem chamar-se Nicole Kidman, Kim Basinger, Sharon Stone ou Kathleen Turner. Ou podem ser a loirinha de olhos azuis que vive no prédio defronte do nosso; ou a prima do nosso colega de trabalho, aquela que almoça com ele todas as segundas-feiras... Nunca fala connosco durante a refeição. Será por delicadeza, timidez excessiva ou por nos querer convidar a matar o marido dela?
Tenham cuidado. O perigo pode vir de onde menos se espera. Se a vossa vida fosse um filme de Hitchcock, o perigo bem podia vir da acção de uma loira misteriosa. Mas atenção: se a vossa vida fosse um filme de Hitchcock, a razão plena da vossa alegria também podia ser o amor da vossa companheira. Aquela que partilha convosco todos os perigos da vossa vida. Uma Priscilla Lane (como em "Sabotagem" (1942)), uma Doris Day (como em "O Homem que Sabia Demais" (1956)), uma Ingrid Bergman (como em "Casa Encantada" (1945)) ou uma Julie Andrews (como em "Cortina Rasgada" (1966)).
Cuidado homens deste planeta... Mas não exagerem nas vossas desconfianças. Como dizia o outro, a diferença entre o Homem e a Mulher é pequena mas... viva a pequena diferença!
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