quinta-feira, agosto 14, 2008

DIRECTED BY ALFRED HITCHCOCK


«Na vida, se soubéssemos as consequências de cada coisa, o entusiasmo perderia a razão de ser. Que piada teria ir a um jogo de basebol, se já soubéssemos que equipa ia vencer? Para quê ir pescar se já se sabia de antemão se haveria pesca (ou não)? O desconhecido tem apelo precisamente porque é misterioso. (…) Como vivemos, o problema é nosso. Podemos fazê-lo num constante estado de ansiedade quanto ao futuro, sempre com medo de que no final os maus vençam, a injustiça triunfe e a humanidade se destrua. Ou poderemos usar a dádiva (de não conhecer o futuro) criativamente; ajudar homens de boa vontade a ganhar, ajudar a justiça a triunfar e acreditar que o drama humano deve ter um final feliz. O melhor do futuro é que vem para nós, um dia de cada vez.»
Alfred Hitchcock

É frequentemente difícil proferir conclusões no final de um longo discurso. Especialmente quando conversamos intuitivamente sem procurar uma ordem coerente para o encadeamento dos diferentes argumentos. O que se apresenta neste blog que hoje termina são oitenta comentários distintos que incidem sobre temáticas diferentes expostas segundo uma ordenação arbitrária. Na verdade, só existem dois elementos comuns a todos estes comentários: o Mestre Hitchcock e eu mesmo.

Por esse motivo, é complicado encontrar uma ideia que confira sentido a esta sucessão de reflexões. O que procurei sempre (até à última linha) foi escrever aqui com sinceridade. Como referi antes, de um modo poético e quase surrealista, procurei ver a minha vida e tudo o que me rodeia pelas lentes das câmaras dos filmes de Hitchcock, pelo olhar que emanava deles. Tentei fazer das minhas percepções um ponto de partida para a compreensão do cinema de Hitch.

Cheguei a comparar-me a esse homem a quem chamo às vezes Alfred Joseph – chamo-lhe assim quando identifico o lado dele que me é mais familiar. O da sua timidez e do seu desejo de aceitação pelos outros; o da sua insegurança em relação às suas certezas e da sua necessidade (que lhe era vital) de ter junto de si os que mais amava no mundo – em particular, a sua esposa Alma Reville, cuja morte ele nem queria conceber e cuja doença cardíaca antecipou o seu próprio declínio pessoal.

Alfred Joseph e eu. Aquele sobre quem escrevi e aquele que debitou comentários dispersos sobre a Vida, o Cinema e o Suspense – segundo diz o lema do blog.

Tentei provar aqui que o universo de Hitchcock engloba muito mais do que o patamar do «suspense». O suspense será como que a nuvem mais visível e expressiva num céu onde também se pode ver o Sol, a Lua, nuvens mais pequenas e até um pequeno aeroplano que passa momentaneamente.
O Cinema de Hitchcock não é só suspense. Não é tão linear nem tão simplista assim. Procurei mostrar diferentes perspectivas e valores na filmografia de Hitch. Mas muito ficou por escrever…

Desde Junho de 2005, tenho escrito para este espaço, respondendo ao desafio de dissertar sobre temáticas específicas intuitivamente definidas por mim. No termo de tantos meses de escrita, confesso que nunca li atentamente o que deixei para trás. Agora, no derradeiro comentário, apresenta-se-me abusivamente uma questão desconcertante: como devo terminar o blog?

Primeiramente, é meu dever explicar porque é este o meu último texto para o «EU, HITCHCOCKIANO, ME CONFESSO». Na verdade, considero que neste nosso pequeno mundo, tudo deve ser planeado e previsto mediante cenários salutares. Planear implica antever as dificuldades e agir a priori contra elas.

Não disponho do tempo necessário para desenvolver este blog de um modo mais dinâmico (quer em termos informáticos, quer principalmente em termos da expansão dos conteúdos). Esta realidade é incontornável e não é meu desejo transformar o prazer da escrita sobre Cinema numa rotina desagradável que é respeitada por obrigação moral.

Continuarei a escrever. Gerindo o tempo livre do melhor modo possível. O Hitchcock nunca poderá ser esquecido por mim. Estou a terminar um livro sobre filmes. E encontro-me na fase conclusiva de um romance e de um livro de contos. A escrita é para mim uma fonte de entretenimento e uma criação dinâmica. Nunca deverá ser vista de outra forma. Confesso, no entanto, que termino este blog com alguma mágoa. Mágoa que não poderei ignorar nem negar.

Hoje é dia 13 de Agosto. Alfred Hitchcock faria hoje anos e parece-me simpático encerrar esta iniciativa no dia do calendário em que tudo começou. Exactamente há 109 anos. Defini esta data para o fim do blog há vários meses. Ainda que possamos ser escravos dos planeamentos – e do desejo de uma vida onde tudo decorre como é previsto – nada nos pode libertar das imprevisibilidades. Como a Morte. Ou a Doença. Ou a decadência das capacidades físicas – essa mesma que impediu Hitchcock de terminar o seu último projecto: «The Short Night» baseado num romance de Ronald Kirkbridge.

Como já escrevi algures, com o Hitchcock aprendi a interessar-me verdadeiramente pelo aspecto técnico dos filmes e por reflectir sobre o valor intrínseco e extrínseco de cada obra cinematográfica. Tudo começou para mim em 1985. Numa pequena sala de cinema de Lisboa onde descobri «Janela Indiscreta». Hitchcock já estava morto mas começou então a marcar-me. Por isso, nunca ninguém pode ter a certeza de nada. Mesmos mortos, os seres humanos têm um poder imprevisível. Daí o fascínio de todos os mistérios, de todos os enigmas que não compreendemos nem podemos conhecer. A Vida, a Morte e o Futuro.



4 comentários:

Tiago disse...

Um magnífico blog, com excelentes textos (o último dos quais com o pormenor brilhante do aniversário de Hitch), que espero estarem bem guardados nos teus arquivos literários, para, caso surja algum imprevisto informático, eu poder ler (e reler) muitos dos teus textos que não li, pela odiosa falta de tempo. O futuro será imprevisível, mas ainda não abandonei a ideia de escrevermos um livro juntos, ainda antes de sermos galardoados com o Nobel!
Um grande abraço,
Tiago

iaiá albuquerque disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Tribuna do gueto, a voz da periferia. disse...

Pena eu descobrir o teu blog só agora.
Me interessei demais por teus textos, li vários e vário num único dia.
No dia que tu vieres aqui pelo teu blog, nem que seja só de visita gostaria que tu me disseses o nome dos teus livros, quando serão lançados. Gostaria demais de tê-los.
nayra_albuquerque@hotmail.com
São Luís - Maranhão, Brasil.

Jackson disse...

Estou admirado com o teu fanatismo para com um dos grandes génios cinematográficos: Hitchcock! Parabéns pelo blog, uma grande homenagem a um grande cineasta!

Abraços