sábado, dezembro 10, 2005

A FIGURA PESSOAL DE HITCHCOCK


Hitchcock permanece uma das grandes figuras simbólicas do Cinema. É um ícone. Embora os seus filmes debatam sistematicamente os temas do crime, do suspense e da espionagem, muitos intelectuais insistem em colocá-lo entre os melhores realizadores de sempre.

O segredo da popularidade da sua imagem pessoal explica-se por vários motivos. Ele mesmo aparecia fugazmente em cenas dos seus filmes. Tornou-se uma norma quase inviolável, o preceito de fazer aparições discretas em cada uma das suas obras. Não como actor. Mas sim como figurante.

Por outro lado, a sua figura era divulgada amplamente nos cartazes publicitários. Às vezes, o seu rosto e o seu perfil característico eram mais explorados pelas campanhas de marketing do que o nome e a imagem das estrelas dos seus filmes.

Mas não só por isto. Também devido às séries de televisão que apresentou durante cerca de 7 anos (entre 1955 e 1962). Séries com episódios relativamente curtos. (Em “Alfred Hitchcock Presents…” cada história tinha a duração de cerca de 23 minutos. Em “The Alfred Hitchcock Hour” a duração dos episódios foi alongada para 40, 45 minutos. É a segunda série que passa actualmente no canal SIC Mulher da TV Cabo.)

Devo admitir que não sou um conhecedor profundo do trabalho de Hitchcock para televisão. Sei que dos mais de 300 episódios que foram emitidos, Hitchcock só terá realizado pouco mais do que uma vintena. No entanto, o seu papel de apresentador e de anfitrião do programa resultou no veículo perfeito para a promoção da sua imagem. E para a expansão da sua popularidade.

Também foram publicadas colectâneas de contos policiais e histórias de crime sob a tutela de Hitchcock. Em cada livro, a imagem de Hitchcock era difundida e explorada.

O grande público conhecia Alfred Hitchcock. Era tão familiar como os grandes actores e actrizes de Hollywood. Era um homem gordo, rotundo, sisudo, que soltava piadas irónicas carregadas de humor negro e de sarcasmo, pronunciando cada palavra de forma grave, explícita e vagarosa.

O seu auto-retrato (um conjunto de linhas arredondadas) é a imagem de marca dos seus produtos. Podemos vê-lo nos DVDs que hoje se vendem, nas campanhas publicitárias, nas capas dos imensos ensaios que sobre ele foram escritos.

De facto, só outro cineasta do seu tempo era tão familiar das audiências: Charlie Chaplin. E depois, muitos anos mais tarde, apareceria Woody Allen. No entanto, Chaplin e Allen desempenham papéis importantes nos filmes que realizam. Como Orson Welles também. Hitchcock era diferente…

A marca Hitchcock estava associada a um certo tipo de produto cinematográfico. A sua figura encaixava ironicamente nos cenários emblemáticos das suas histórias de crime.

Veja-se o trailer do filme “Psico” (1960): não apresentava imagens do filme como era comum acontecer. Em vez disso, víamos o realizador a passear-se pelos cenários em que a acção decorria, alimentando suspeitas e curiosidade. Sempre com um travo de ironia em cada palavra que pronunciava. O seu olhar deslizava atentamente pelo interior do motel Bates e pela velha casa sinistra. Brincava deliciadamente com tudo aquilo. Divertia-se enquanto preparava a nossa diversão.

O aspecto austero de Hitchcock a que correspondia uma personalidade severa própria de alguém que não se entendia bem com todas as pessoas, deixava antever também um lado bonacheirão. Ele parecia gostar de brincar com tudo.

O seu aspecto rotundo fazia associar à sua personalidade a ideia do gordo que come bem e que tem prazer em comer com requinte.

A sua figura e a sua personalidade parecem estar cravadas nas linhas das pautas da banda sonora de “O Terceiro Tiro” (1955). O compositor Bernard Herrmann que o conhecia intimamente terá composto um arranjo de peças musicais extraídas daquele filme. E ter-lhe-à chamado “A Portrait of Hitch”.
Parece vermos a figura de Hitchcock enquanto escutamos aquele arranjo pleno de humor, sarcasmo e também de uma densidade aqui e ali enigmática. O grande Herrmann terá concebido as frases musicais que descrevem a figura de Hitchcock. Com todo a sua subtileza e ironia. Mas também com toda a sua apetência pelo sinistro e pelo misterioso.


A figura do mestre inglês do suspense ficará para sempre associada à cultura cinematográfica do século XX. Os cinéfilos que viveram durante os anos 40, 50 e 60, não esquecerão aquela figura. Inclusivamente as elites intelectuais. Quem, como eu, foi sensível ao espírito de saudosismo hitchcockiano dos anos 80, também mantém bem presente a figura do Mestre.

Hoje, nas prateleiras das livrarias, encontramos dezenas e dezenas de ensaios sobre o cinema de Hitchcock. E muito frequentemente é a figura do realizador que está em evidência nas fotografias das diferentes edições. Imagens com Hitchcock. A trabalhar, na sua vida pessoal ou em retratos insólitos.

Recordo-me de uma fotografia do rio Tamisa em que se vê o corpo de Hitchcock a boiar sobre as águas; ou de uma imagem sua segurando uma faca comprometedora; vestido de velha senhora inglesa; ou sentado na cadeira da senhora Bates (a estranha e incógnita assassina monstruosa de “Psico”). Em todas estas imagens e em centenas de outras, se definiu a figura de Hitchcock. Figura singular do universo dos filmes…

Julgo que esquecer o nome de Hitchcock será consentir no estabelecimento de uma lacuna cultural. Mas conhecer um pouco do cinema de Hitchcock sem conhecer a sua figura pessoal… Será, mais do que improvável, quase impossível.

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