domingo, setembro 24, 2006

A MÚSICA DO CINEMA DE HITCHCOCK FAZ-NOS COMPANHIA


É verdade. Quem passou por este blog nos últimos dias terá obviamente reparado que lhe foi adicionado um ingrediente importante. É a Música do Cinema de Hitchcock. Este é apenas um pequeno contributo suplementar que me empenhei em tornar concreto.

Temos escutado esta semana o tema do genérico de "Vertigo" (1958) composto por Bernard Herrmann e que na tela se faz acompanhar pelas imagens enigmáticas do grande designer Saul Bass (como a que vemos na fotografia).

Procurarei mudar o tema musical sempre que possível. Oxalá não considerem abusiva a ideia de colocar as notas de Herrmann directamente nos vossos ouvidos. Esta música é um dos hinos mais célebres da obra de Hitchcock. Quem a conhece compreende a dimensão do seu poder porque possivelmente já a ouviu no contexto do filme. Quem não a toma por familiar poderá mesmo assim sentir o tom enigmático deste trecho que abre um dos filmes maiores de todos os tempos.

Atenção: Esta é uma transcrição da banda sonora original. Poderão encontrar no mercado versões gravadas mediante condições tecnológicas mais modernas. Mas uma gravação com um som mais sonante e límpido poderá até não traduzir tão bem a criatividade artística de Herrmann. Criatividade que associa sublimemente componentes clássicos com moldes inovadores e um pouco experimentais; sonoridades peculiares e uma repetição estratégica de certos acordes.

Quem se cansar do tema musical que está em acção poderá sempre desligar o sistema de som do computador. Bernard Herrmann cria um ambiente propício às minhas introspecções hitchcockianas. Mas quem se entediar de Herrmann ou da repetição de um trecho poderá (e deverá) pedir-lhe que pouse a batuta com que dirige tão emotivamente a orquestra. Porque o silêncio às vezes opera mil vezes melhor que qualquer som. E só cada um de nós (que é director do filme da sua vida) é que sabe intuitivamente quando uma cena apela ou não à necessidade de uma banda sonora.

quarta-feira, setembro 20, 2006

NAS PASSADAS DE HITCHCOCK II - A Suspeição e o Crime






O patamar emocional dos personagens é sobejamente importante nas histórias de crime de Hitchcock. A tal ponto que aqui e ali Hitchcock gostava de invadir o território da Psicanálise (como acontece em “Casa Encantada” (1945) e em “Marnie” (1964)).

No domínio das emoções é essencial definir o pensamento dos heróis com os quais o público se identifica. Que suspeitas alimentam, que desconfianças, que atracções ou repulsas…

A suspeição e a desconfiança estão quase sempre presentes no cinema de Hitchcock. Ou estão alojadas nos personagens ou são semeadas no olhar e no pensamento do espectador.

O caso de “Suspeita” (1941) é o paradigma de uma história de mistério e crime sem crimes. Tudo naquele filme se passa ao nível da perspectiva da protagonista (Joan Fontaine). Se tememos por ela é porque ela receia e tem medo e não porque haja perigo… E se sofremos com ela é porque lemos o seu pensamento como se ela falasse directamente para nós.

A suspeição e a desconfiança criam uma incrível inquietação. Neste sentido, Hitchcock foi um dos percursores da construção de um cinema centrado no patamar de pensamentos ambíguos, de obsessões e de desconfianças.

Em “Suspeita” Hitchcock foi liminarmente obrigado pelos produtores a construir um happy-end. No caso da intriga do filme em particular, isto significava que Cary Grant não podia de modo nenhum desempenhar o papel de um assassino. As pessoas não esperavam isso de Cary Grant nem era credível pensar que a ideia ia resultar bem junto do público.

Hoje percebemos como o filme teria sido enriquecido se a proposta de Hitchcock tivesse sido aceite. O impacto emocional do filme seria mil vezes superior se Cary Grant fosse um terrível criminoso e se Joan Fontaine morresse nas suas mãos.

A desconfiança e o medo levam à construção de fantasmas. Mas às vezes esses fantasmas só existem no pensamento das pessoas. A ambiguidade decorrente da desconfiança tem sido explorada em muitos e variados filmes.

Numa linha hitchcockiana próxima de “Suspeita”, Glenn Close e Jeff Bridges protagonizaram “O Fio do Suspeito” (1985) de Richard Marquand. Aqui uma advogada defende cegamente um homem em tribunal e consegue que seja declarado inocente da morte da sua esposa. No final, aquele homem por quem se apaixonara tão perdidamente revela-se o temido assassino e ela terá de lutar pela sua vida.

Numa época em que já não se associavam tão ingenuamente os actores a um padrão definido de papéis, Jeff Bridges que parecia um herói (e nós víamo-lo com os olhos de Close) converte-se num golpe rápido do argumento em predador insensível.

“Presumível Inocente” (1990) de Alan J. Pakula funciona no mesmo patamar. Aqui Harrison Ford poderá (ou não) ser autor de um crime passional. Só nos últimos minutos do filme é desvendado o enigma de uma história que não sendo muito emocionante está bem filmada e alimenta quase até ao fim uma angustiante ambiguidade.


Em 1983, Robert Benton (cineasta mais brilhante na composição de melodramas como “Kramer contra Kramer” (1979) e “Um Lugar no Coração” (1984)) realizou “Na Calada da Noite” como um palco de acção hitchcockiana. Meryl Streep surge-nos como uma loira enigmática que tanto se poderá revelar perigosa como volátil ou frágil. Benton filma algumas sequências oníricas e privilegia o papel da Psicanálise na explicação de certos desejos inconscientes. Hitchcock estava morto em 1983 mas parece passear por ali…

Jonathan Demme filmou “O Último Abraço” (1979) com o fito de explorar a atenção e o interesse dos hitchcockianos. É um filme com uma mulher perigosa (para variar não é loira o que já revela alguma imaginação…) e uma intriga misteriosa repleta de pistas que não se sabe onde vão conduzir. Tem um final trepidante no alto das cataratas do Niagara. (A propósito, sempre me pareceu que Hitchcock poderia ter dirigido “Niagara” (1953) de Henry Hattaway!)

A película de Demme explora a desconfiança do espectador que se transmite pela suspeição do próprio protagonista (Roy Scheider). Demme que realizaria anos depois um brilhante “Silêncio dos Inocentes” conduz aqui um filme bastante modesto. Mas há variados pormenores a evocarem o cinema de Hitchcock. O filme estreou pouco tempo antes da morte do Mestre clássico do Suspense. Já este estaria muito velho e doente. Talvez nem tenha reparado na homenagem.

Há inúmeros exemplos de histórias transpostas para o Cinema que se alicerçam na ênfase dada aos sentimentos da Desconfiança e da Dúvida. Em algumas delas o perigo nasce dentro de casa (“Dormindo Com o Inimigo” (1991) de Joseph Ruben com Júlia Roberts; ou “A Verdade Escondida” (2000) de Robert Zemeckis). Outras vezes o perigo pode vir de fora e instalar-se no mundo pessoal das suas vítimas (como em “O Inquilino Misterioso” (1990) de John Schlesinger).

Hitchcock realizou um morno “Lifeboat” (1944) contando a história de um grupo de pessoas deixadas pelo destino a bordo de um barco exíguo. Aqui as suspeições e desconfianças de uns em relação aos outros tornam-se difíceis de suportar. Uma embarcação no alto mar pode suscitar uma dupla sensação de angústia: é um espaço fechado dentro de um espaço aberto imenso.

Roman Polanski concebeu mais tarde um ambiente particularmente tenso em “A Faca na Água” (1962) desenvolvendo a história de dois homens e de uma mulher num barco exíguo. Um possível trio amoroso… Um casal cujo quotidiano é invadido pela presença de um estranho.

As audiências viram Nicole Kidman, Sam Neill e Billy Zane em “Calma de Morte” (1989) dentro do espaço claustrofóbico de um barco. Um filme de Philip Noyce que leva a tensão emocional do espectador à circunstância de cada personagem ter de lutar pela sua vida.

Talvez tenha sido sintomático nomear Roman Polanski. Porque ele é mestre na arte de conceber ambientes inquietantes. E é capaz de criar terror sem efeitos especiais. No domínio da suspeição e da desconfiança isto revela-se fulcral. Veja-se o clássico “A Semente do Diabo” (1968).

Suspeição, Desconfiança e Dúvida? São território de Hitchcock em “Mentira”, “Rebecca”, “Janela Indiscreta” ou “Desconhecido do Norte-Expresso” mas são afinal também temáticas importantíssimas em todas as histórias policiais (como as de Agatha Christie ou de Patrícia Highsmith). Só que Hitchcock tinha o seu jeito próprio de as explorar. E terá sido imensamente imitado ao longo dos anos…

segunda-feira, setembro 11, 2006

NAS PASSADAS DE HITCHCOCK I - Os psicopatas





O que é que aconteceu ao suspense hitchcockiano? Morreu com o cineasta ou ainda existe no cinema dos nossos dias? Na verdade bem sabemos que o suspense não é uma criação de Hitchcock e que já o encontrávamos bem evidente na literatura de Edgar Allan Poe e de H. G. Wells ou no cinema de D. W. Griffith e de Fritz Lang.

Grifith compôs belas sequências de suspense em “Nascimento de Uma Nação” (1915) e em “Intolerância”(1916). Lang foi o criador de brilhantes filmes de suspense como “M” (1931), “The Woman in the Window” (1944) e “O Segredo da Porta Fechada” (1947).

O suspense conhece muitos matizes. Na vida humana como em qualquer forma de arte. O suspense hitchcockiano segue alguns parâmetros e premeia certas temáticas. O que é que lhe sucedeu após o ano da morte de Hitchcock (1980)?

Parece-me evidente que nos últimos anos se operou uma diluição do suspense hitchcockiano em muitos estilos diferentes de thrillers e de histórias de mistério. Ao ponto de já não podermos argumentar com precisão se Hitchcock poderia ou não ter feito este ou aquele filme.

Hitchcock deixou uma legião de seguidores e eventualmente alguns sucessores. Ainda em vida, ele era já muito imitado e acabou competindo com aqueles que copiavam o seu estilo. Podemos neste contexto pensar em “Charada” (1963) e “Arabesco” (1966) de Stanley Donen, em “O Prémio” (1963) de Mark Robson ou em “Wait Until Dark” (1967) de Terence Young.

Brian De Palma que apresentou recentemente no Festival de Veneza o filme “A Dália Negra”, é um relevante continuador do suspense hitchcockiano. Os seus filmes de suspense têm sido financeiramente lucrativos especialmente aqueles que realizou nos anos 70 e 80. Exemplos: "Carrie" (1976), “Vestida para Matar” (1980) e “Testemunha de um Crime” (1984). Filmes mais espalhafatosos do que geniais e que eram exageradamente sangrentos. Com soluções visuais demasiado aparatosas e que evidenciavam algum mau gosto. Obras que aplicam um grande sensacionalismo visual e em que a música de Pino Donaggio procura adensar o suspense ao pormenor de cada segundo.

O primeiro filme hitchcockiano de Brian de Palma foi “Sisters” (1973) e logo depois seguiu-se-lhe “Obsessão”. Ambos têm música do compositor maior do cinema de Hitchcock: Bernard Herrmann.

“Obsessão” foi realizado com mais contenção e reenvia a memória do espectador para “Vertigo” (1958) com todo o seu espírito obsessivo, necrófilo e melancólico.

O que soa a mau gosto em De Palma, soa cruel mas intenso em Jonathan Demme. O seu “O Último Abraço” (1979) é fraco mas muito ao estilo de Hitchcock. O desenvolvimento final do seu “Selvagem e Perigosa” (1986) prende a respiração. A exploração competente do tema dos “serial killers” em “Silêncio dos Inocentes” (1991) revela uma enorme densidade emocional.

Em “Silêncio dos Inocentes” a direcção de actores é brilhante. E o impacto visual das imagens e do modo de filmar intensifica o desempenho dos actores. Alfred Hitchcock, realizador de “Frenzy” (1972), teria rodado um filme como este?

A área temática dos psicopatas é tão importante nos filmes de Hitchcock que lhe poderíamos dedicar um comentário extenso. Veja-se “O Inquilino Sinistro” (1926), “Mentira” (1943), “O Desconhecido do Norte-Expresso” (1952), “Frenzy” ou o incontornável “Psico” (1960).

Mas deve-se salientar que outros filmes historicamente relevantes contam histórias sobre psicopatas e são marginais ao cinema de Hitchcock. Como “Peeping Tom” (1960) de Michael Powell, “The Collector” (1965) de William Wyler ou “Repulsa” (1965) de Roman Polanski.

Nas últimas duas décadas têm-se feito muitos filmes em que o perigo decorrente da loucura se converte num suspense vertiginoso.

“Atracção Fatal” (1987) de Adrian Lyne e “Instinto Fatal” (1992) de Paul Verhoeven foram sucessos retumbantes. Ambos estão centrados num ambiente carregado de erotismo e em que a mulher-tentação se revela um perigo extremo. Glenn Close e Sharon Stone foram as brilhantes estrelas de cada um dos filmes.

Há outros tipos de psicopatas que têm assaltado as histórias dos filmes contemporâneos. O psicopata vingativo que procura repor implacavelmente uma justiça perdida. Exemplos: “A Mão Que Embala o Berço” (1992) de Curtis Hanson e “Jovem Procura Companheira” (1992) de Barbet Schroeder.

Psicopatas com traumas que sendo vítimas do seu destino se tornam carrascos do destino dos outros. Como Robin Williams em “One Hour Photo” e "Insónia" (ambos de 2002).

Histórias que até podem ser tristemente verídicas como acontece no caso do clássico “Massacre no Texas” (1974) de Tobe Hooper. (Aliás a história verídica desse psicopata havia inspirado "Psico" muitos anos antes.)

A loucura pode ser um fundamento credível para os procedimentos mais brutais. E parece conferir sentido e lógica a realidades inimagináveis. Hitchcock apercebeu-se disso. E do perigo que pode advir de um louco à solta. Perigo para os personagens. Emoção para os espectadores… Esta receita para o cinema de suspense não perdeu o seu impacto.

quarta-feira, setembro 06, 2006

HITCHCOCK NA ESPLANADA (Conclusão)


Caminhamos placidamente para os derradeiros dias de Verão. E, como ficou prometido, a Cinemateca conclui até ao final do mês o ciclo HITCHCOCK NA ESPLANADA. Às quintas, sextas e sábados sempre às 22.30.

O programa inclui algumas omissões graves porque este não é obviamente um ciclo de revisitação integral da obra do realizador. Mas é sempre apetecível reencontrar o bom cinema do Mestre clássico do suspense no conforto da esplanada junto ao bar. Especialmente porque as condições de projecção são muito boas.

Nos corredores da Cinemateca podemos examinar uma colecção de cartazes e posters publicitários relativos à obra de Hitchcock.

As sessões têm um intervalo e só começam a meio do serão. Logo há espaço e oportunidade para conviver com os amigos e respirar serenamente o ar fresco e suave das noites de Verão. O serviço de bar funciona até à meia-noite. Quem estiver só pode levar um livro, um jornal ou um passatempo e permanecer no espaço enquanto o grupo de espectadores se vai juntando.

Quando estou sozinho lá, sinto-me em família, rodeado por desconhecidos que me parece conhecer muito bem... A unir-nos está uma cinefilia revigorante e a partilha de um ambiente que é de todos nós e que gozamos na memória do mestre Hitchcock. Beber um café diante de James Stewart, de Janet Leigh ou de Ingrid Bergman é para mim respirar no meu habitat natural. Mas garanto-vos que é imensamente agradável ouvir as exclamações e os risos de outros espectadores. O Cinema adequa-se bem aos solitários mas muitos solitários juntos fazem uma audiência animada. E onde há animação há vida...

Hitchcock vê-se e revê-se com agrado. Revisitar alguns dos seus filmes é um ritual que enriquece o ânimo e a experiência pessoal de qualquer hitchcockiano.

Isto no momento em que o preço dos DVDs baixa e muito do cinema de Hitchcock está acessível e bem difundido comercialmente. E nos meses em que o canal Hollywood tem reposto alguns sucessos do Mestre em horário nobre... Mas bom... Os cinéfilos não costumam trocar uma tela verdadeira por um écran de televisão.

Por tudo isto lá irei estar na esplanada... Com um café diante de mim. Quem não me conhece, procure entre os trintões gorduchos e pensativos que por lá passeiam. E talvez os vossos olhos passem por mim.

Passam nos próximos dias:

DESAPARECIDA, Quinta 7
O DESCONHECIDO DO NORTE-EXPRESSO, Sexta 8
PSICO, Sábado 9

A POUSADA DA JAMAICA, Quinta 14
SOB O SIGNO DO CAPRICÓRNIO, Sexta 15
A CORDA, Sábado 16

JOVEM E INOCENTE, Quinta 21
A CASA ENCANTADA, Sexta 22
DIFAMAÇÃO, Sábado 23

REBECCA, Quinta 28
LADRÃO DE CASACA, Sexta 29
JANELA INDISCRETA, Sábado 30

terça-feira, agosto 15, 2006

FELIZ ANIVERSÁRIO MRS ALMA HITCHCOCK!



Ontem teria sido dia de festa em casa dos Hitchcock. A grande senhora por detrás do ilustre cineasta Alfred Hitchcock festejaria ontem 107 anos. Era uma mulher discreta mas muito mais influente do que poderíamos pensar à partida.

Alfred Hitchcock dependia da sua mulher de uma forma subtil mas intensa. Ela oferecia-lhe estabilidade emocional e segurança. E ele gostava sempre de escutar a sua opinião.
Alma Hitchcock lia frequentemente as propostas que eram feitas ao marido. Revelava a sua opinião acerca de cada projecto e contribuía com ideias e sugestões.

Era uma senhora que emprestava conforto e confiança a Hitchcock. Carinho e compreensão. Gostava de se vestir bem e de cuidar da sua imagem mas não era exuberante nem tremendamente bonita como as actrizes que o marido dirigia.

O lado mais tímido e frágil de Hitchcock tinha necessidade de uma mulher temperamentalmente forte e que fosse competente nas suas funções. Alma começou a trabalhar na indústria cinematográfica ainda antes de Hitchcock. Era uma profissional experiente em muitas áreas da produção de um filme.

Alma nasceu a 14 de Agosto de 1899. Fez ontem 107 anos. O seu rotundo marido nasceu um dia antes: a 13 de Agosto de 1899. Por ironia ou capricho do destino. Hitchcock reparou em Alma pouco tempo depois de começar a vê-la trabalhar em Londres.

Perguntavam a Hitchcock porque gostara tanto de Alma. Ele respondia com humor: “Gosto de mulheres mais velhas.”

Hoje eu saúdo mais uma vez o casal. Numa época em que o casamento assusta um pouco as pessoas porque parece que as acorrenta a um compromisso,
Alma e Alfred Joseph viveram um belo exemplo de parceria romântica, emocional e profissional. Que durou mais de cinquenta anos.

Um ano depois de ter começado a escrever neste blog, é natural que me sinta no dever metodológico de fazer um balanço destas sessenta semanas. Para preparar melhor os meses que estão para vir.

Há amigos meus que comentam que escrevo demais e que cada post deveria ser mais breve. Eu gosto de desenvolver uma ideia durante vários dias. Por isso, opto sistematicamente por escrever mais linhas de cada vez, publicando menos mensagens por mês. É uma estratégia.

Este blog é a tentativa de fazer uma reflexão prolongada sobre o meu amor aos filmes. Há quem comente que deveria falar mais de outros realizadores e de outras áreas temáticas do Cinema no tempo e no espaço.

No entanto, a construção deste blog deveria partir de um dos pontos centrais da minha cinefilia: o hitchcockianismo.

Daqui a um ano, Alfred Hitchcock completaria 108 anos. No dia 13 de Agosto. Nesse dia conto publicar o derradeiro post deste blog que tanto servirá de instrumento de conclusão como de ponte para um outro possível blog.

O compromisso que me mantém fiel à cinefilia e ao hitchcockianismo terá cimentado raízes há muitos anos. Talvez há mais de duas décadas e meia. Vive neste blog e acredito que permanecerá activo pela minha vida fora.

O compromisso entre Hitchcock e Alma terá sido concebido a bordo de um navio. Viajavam em missão de trabalho e, depois de um intenso impasse, Hitchcock ter-se-à abalançado a propor Alma em casamento. O barco agitava-se muito porque o mar estava inquieto. Alma estava muito agoniada e encontrava-se estendida sobre uma cama. Entre soluços e um ligeiro arroto terá declarado que aceitava a proposta de Alfred Joseph.

Hitchcock guardaria para sempre a memória daquela cena romântica adornada com o arroto de Alma. Parecia que o amor e o humor estavam sempre presentes na vida e no cinema de Hitchcock. Às vezes em momentos cruciais.

O meu compromisso com o Cinema (e muito em particular com o universo de Alfred Hitchcock) é sólido e sadio. Mas uma coisa vos digo: um filme pode ser uma criação espantosa e há filmes que me divertem imenso sempre que os revejo. Mas nenhum filme substitui o calor humano de uma mulher como Alma. (Nem a oferta de amor expressa num arroto espontâneo como aquele…)

O filme acaba e é apenas celulóide, um disco metálico ou fita de VHS. Não nos acarinha nem aconselha. Delicia-nos enquanto está a passar mas não fala directamente para nós nem nos beija. Por isso saúdo sempre o Cinema. Mas saúdo hoje em particular o amor de Alma. Todo o tipo de amor que enriquece a experiência de viver neste mundo. Feliz 107º Aniversário!

domingo, agosto 06, 2006

SOBRE O MACGUFFIN - O MOTIVO DE TODOS OS MOTIVOS


O Cinema de Hitchcock é para todos os efeitos um fenómeno de criação e de recriação de ilusões. Um entretenimento e uma fuga à realidade. Por isso, quase nunca os seus filmes relatam histórias quotidianas mas mostram antes pessoas do quotidiano em situações extraordinárias.

Para Hitchcock era primordial que o espectador se identificasse com o herói e que, por meio dessa identificação, vivesse intensamente as peripécias do seu percurso atribulado.

O “macguffin” é um termo de importância central na aproximação de Hitchcock ao Cinema. Faz parte de qualquer glossário de princípios hitchcockianos. O “macguffin” simboliza um interesse que mobiliza e afecta densamente o destino dos personagens de um filme.

Pode ser o conteúdo misterioso das garrafas escondidas na adega de uma casa grande (como em “Difamação”). Ou o teor da fórmula secreta que move os espiões e os contra-espiões. Pode ser a causa de se querer a morte de alguém ou o motivo do estabelecimento de uma loucura ou de uma obsessão. Razões e explicações? Hitchcock não perdia muito tempo com elas. Nem era necessário fazê-lo.

O “macguffin” existe para cumprir uma função. É a explicação para um roubo, para uma sabotagem ou para um assassinato. Basta que tomemos consciência da sua importância. Que sintamos que é um pormenor vital.

Nem sempre Hitchcock narrava as histórias do princípio ao fim. Não raras vezes, deixava pormenores insolúveis. E também esse aspecto enriquecia indirectamente o enredo dos seus filmes, tornando-os mais complexos e menos lineares.

Veja-se a densidade emocional dos personagens de “Os Pássaros” que está muito para além da história de terror. Ou a paixão entre Cary Grant e Ingrid Bergman em “Difamação” que acaba por se revelar como estando acima do interesse pelo destino dos vilões e pela intriga de espionagem.

Na verdade, Hitchcock contava sempre o essencial. Mas não perdia tempo a explicar aspectos secundários. A menos que esses aspectos iludissem o espectador e o conduzissem a uma surpresa. (É o que acontece com a trivial questão dos 40 000 dólares roubados em “Psico”.)

Como é que surge o termo “macguffin”? Hitchcock costumava contar a história do “macguffin” a muitos dos seus entrevistadores.

Segundo ele, dois homens viajavam de comboio e um deles terá perguntado ao outro: “Desculpe-me a curiosidade, o que traz o senhor nessa mala?” O seu interlocutor respondeu laconicamente: “É um macguffin.” O homem curioso terá torcido a cabeça e coçado o couro cabeludo. Estava intrigado. “O que é um macguffin? Queira desculpar porque se calhar sou muito ignorante…” O homem da mala olhou-o e respondeu prontamente: “Um macguffin serve para caçar leões na Escócia. É muito útil!”
“Mas…” – Terá sentenciado o outro entre gaguejos – “Mas não existem leões na Escócia!” Estava intrigado com a razão de ser de uma coisa que não servia qualquer fim. “Não há leões na Escócia? Então o que trago na mala não é certamente um macguffin.” – Concluiu prontamente o outro homem.


Moral da história: O “macguffin” existe porque tem razão de existir e é importante. No entanto, não interessa a Hitchcock nem aos espectadores percebê-lo intrinsecamente. É suficiente que se tome consciência de que é um aspecto de importância crucial.

Uma boa razão para um homem querer matar a sua esposa pode ser o seu desejo de fugir para a Escócia para caçar lá leões. Mas não existem lá leões?! Então não pode ter sido esse o propósito que explica o assassinato. Seja como for, o que interessa é que ele a matou e pode voltar a matar alguém. É nesse receio, nessa emoção que Hitchcock tentará desenvolver o conteúdo da sua história.

O “macguffin” é uma explicação plausível. Mas não interessa verdadeiramente saber em que consiste. O homem matou a sua esposa porque tem uma amante que vive na Escócia e quer ir viver com ela. De qualquer modo, ele até podia querer ir caçar leões a terras britânicas ou à cidade de Paris. Desde que o inverosímil parecesse coerente…

A emoção e, muito em particular, a construção do suspense são muito mais relevantes do que as explicações. Hitchcock enfatiza em cada cena, em cada plano de alguns dos seus melhores filmes o valor da imagem e o propósito dela servir um fim: desenvolver o universo emocional dos espectadores.

“As pessoas pagam para ser assustadas.” – Costumava proferir ele. De facto, pagam para se sentirem tontas e inseguras no ponto mais íngreme do percurso da montanha russa. Ou para se arrepiarem no comboio-fantasma das feiras. Pagam para ver filmes de terror. Para se esquecerem do seu quotidiano. Para se anestesiarem das dores rotineiras e encontrarem uma fuga emocional algures na luz da máquina de projectar filmes.

E o que é o Cinema senão uma máquina de construção de sonhos? Uma fuga à realidade… Ou numa boa hipótese um reenvio para a realidade através do percurso da ficção…

segunda-feira, julho 24, 2006

HITCHCOCK E OS OSCARS






A relação do cinema de Hitchcock com o universo dos Óscars não foi feliz. Hoje a Academia de Hollywood bem pode sentir-se desconfortável por não ter atribuído um único galardão ao Mestre do Suspense no espaço de cinco décadas, dezenas de filmes e inúmeros sucessos de bilheteira.

Claro que em 1966, Hitchcock recebeu o Irving Thalberg Award como prémio por uma carreira de qualidade invulgar. No enatanto, os prémios de consagração de carreiras não são Óscars genuínos diga-se o que se disser.

Pareceu-me interessante investigar todos os Óscars atribuídos a filmes de Hitchcock nas mais variadas categorias. Apresento aqui uma lista das atribuições sem menosprezar as nomeações que, por si só, já são um sinal de prestígio evidente.

Alfred Hitchcock foi nomeado 5 vezes para Melhor Realizador. Por:
  • Rebecca, 1940
  • Um Barco e Nove Destinos, 1944
  • Casa Encantada, 1945
  • Janela Indiscreta, 1954
  • Psico, 1960

O único filme de Hitchcock a receber o prémio de Melhor Filme do Ano foi "Rebecca", obra materializada pelo grande produtor David O. Selznick um ano depois do seu "E Tudo o Vento Levou". A influência de Selznick em Hollywood era enorme. E embora "Rebecca" seja um belo filme sob variados aspectos - nomeadamente o da riqueza visual expressa na bela fotografia a preto e branco - grandes obras-primas de Hitchcock hoje unanimemente aclamadas nem sequer foram nomeadas para o galardão de Melhor Filme. Como por exemplo "Janela Indiscreta", "Mentira", "Vertigo", "Intriga Internacional", "Psico" ou "Os Pássaros".

Os Óscars valem o que valem. Acima de tudo atribuem estatuto e uma enorme capacidade de encaixe financeiro. Mas as qualidades dos filmes não são quantificáveis. Os gostos mudam e os conceitos de qualidade metamorfoseiam-se. O que hoje é genial amanhã poderá parecer datado. E o que não parece relevante agora poderá ser mais tarde digno de uma enorme respeitabilidade.

Os Óscars envolvem dinheiro, influência e interesses. Mas mesmo assim marcam a História de Hollywood e, com ela, a evolução dos padrões cinematográficos. Por isso, pelo que representam, fiz uma pequena investigação. Aqui está a listagem das atribuições, apresentada ano a ano.

1940 - "REBECCA"

  • Melhor Filme
  • Melhor Fotografia a Preto e Branco

Nomeado para: Melhor Realizador, Melhor Actor (Lawrence Olivier), Melhor Actriz (Joan Fontaine), Melhor Actriz Secundária (Judith Anderson), Melhor Argumento Adaptado, Melhor Art Direction, Melhor Montagem, Melhor Banda Sonora Original (Franz Waxman), Melhores Efeitos Especiais.

1940 - "CORRESPONDENTE DE GUERRA

Nomeado para Melhor Filme, Melhor Actor Secundário (Albert Basserman), Melhor Argumento Original, Melhor Fotografia a Preto e Branco, Melhor Art Direction, Melhores Efeitos Especiais.

1941 - "SUSPEITA"

  • Melhor Actriz (Joan Fontaine)

Nomeado para Melhor Filme, Melhor Banda Sonora Original (Franz Waxman)

1943 - "MENTIRA"

Nomeado para Melhor Argumento Original (SÓ?)

1944 - "UM BARCO E NOVE DESTINOS"

Nomeado para Melhor Realizador, Argumento Original, Fotografia a Preto e Branco.

1945 - "CASA ENCANTADA"

  • Melhor Banda Sonora Original (Miklos Rozsa)

Nomeado para Melhor Filme, Melhor Realizador, Melhor Actor Secundário (Michael Chekhov), Melhor Fotografia a Preto e Branco, Melhores Efeitos Especiais.

1946 - "DIFAMAÇÃO"

Nomeado para Melhor Actor Secundário (Claude Rains) e Melhor Argumento Original.

1947 - "O CASO PARADINE"

Nomeado para Melhor Actriz Secundária (Ethel Barrymore)

1951 - "O DESCONHECIDO DO NORTE EXPRESSO"

Nomeado para Melhor Fotografia a Preto e Branco.

1954 - "JANELA INDISCRETA"

Nomeado para Melhor Realizador, Melhor Argumento, Melhor Fotografia a Cores e Melhor Som.

1955 - "LADRÃO DE CASACA"

  • Melhor Fotografia a Cores

Nomeado para Melhor Guarda-Roupa e Melhor Art Direction.

1956 - "O HOMEM QUE SABIA DEMAIS"

  • Melhor Canção ("Whatever Will Be, Will Be)

1958 - "VERTIGO"

Nomeado para Melhor Art Direction e Melhor Som. (SÓ?)

1959 - "INTRIGA INTERNACIONAL"

Nomeado para Melhor Argumento Original, Melhor Art Direction, Melhor Montagem.

1960 - "PSICO"

Nomeado para Melhor Realizador, Melhor Actriz Secundária (Janet Leigh), Melhor Fotografia a Preto e Branco, Melhor Art Direction.

1963 - "OS PÁSSAROS"

Nomeado para Melhores Efeitos Especiais (SÓ?)

Duas Interrogações adicionais:

1) Como é que não há mais actores secundários nomeados? Exemplos: Thelma Ritter em "Janela Indiscreta", Lila Kedrova em "Cortina Rasgada", Jessica Tandy em "Os Pássaros" ou Barbara Bel Geddes em "Vertigo".

2) Como é que nenhuma das brilhantes bandas sonoras de Bernard Herrmann compostas para Hitchcock recebeu uma nomeação? Foi estranho mas aconteceu...

segunda-feira, julho 10, 2006

NA ESPLANADA COM HITCHCOCK


Estamos no Verão. Estes dias quentes propiciam plácidos serões ao ar livre. Nesta época há mais tempo disponível para o entretenimento e para o lazer. A receita para uma noite agradável pode inquestionavelmente resultar da soma de um bom filme com um momento de convívio prazenteiro.

Tendo em mente todas estas considerações, a Cinemateca Portuguesa (na Rua Barata Salgueiro em Lisboa) convida-nos a rever alguns dos grandes filmes do Mestre do Suspense no espaço da esplanada junto ao bar e à livraria. Às quintas, sextas e sábados sempre às 22.30. O ciclo tem o nome “NA ESPLANADA COM HITCHCOCK”.

É uma oportunidade simpática para todos os cinéfilos nostálgicos, para quem não dispensa um bom filme projectado numas dimensões maiores do que as da televisão. E para quem não está habituado a ver cinema debaixo do céu estrelado.

Parece que a época dos jardins-cinema já passou. O hábito dos drive-in nunca conheceu grandes implementações em Portugal. E talvez as exibições na parede da praça principal da vila já não aconteçam sob o ambiente festivo de outros tempos. (Agora é mais fácil descobrir cinema numa das várias salas pequenas do centro comercial da terra.)

Por isso, mais uma vez, a Cinemateca nos presenteia com um programa de filmes exibidos na esplanada, num ambiente familiar e sereno e onde se respira uma cinefilia revigorante.

Eu ainda sou dos dias em que um filme podia ser reposto inúmeras vezes depois da sua temporada de estreia. E dos tempos em que o Verão era a época soberana do ano para as reprises. Por isso, rever cinema antigo num tranquilo serão de Julho é qualquer coisa que me convoca para algumas das mais agradáveis recordações de tempos idos.


O ciclo decorre até ao final do mês no horário atrás definido. E está prometido que continuará em Setembro. Aqui fica a lista das obras que ainda poderemos redescobrir nos próximos dias.

  • "OS 39 DEGRAUS" - Quinta-Feira, 13
  • "JANELA INDISCRETA" - Sábado, 15
  • "CORRESPONDENTE DE GUERRA" - Quinta-Feira, 20
  • "SUSPEITA" - Sexta-Feira, 21
  • "MARNIE" - Sábado, 22
  • "À 1 E 45" - Quinta-feira, 27
  • "MENTIRA" - Sexta-feira, 28
  • "FRENZY - PERIGO NA NOITE" - Sábado, 29

terça-feira, julho 04, 2006

O GRANDE COMPOSITOR DE HITCHCOCK











O passado dia 29 de Junho e particularmente as linhas que aqui escrevo estavam no meu horizonte há vários meses. Porque nesse dia o grande compositor e maestro Bernard Herrmann completaria 95 anos se fosse vivo.

Na verdade, eu havia mesmo idealizado uma homenagem especial a este homem cuja obra me tem marcado com uma dose de magia. Mas diversos acontecimentos vieram contrariar as minhas intenções
Como cantava John Lennon (dos Beatles), numa música já perdida no tempo (mas não na memória de certas pessoas), a Vida é tudo aquilo que nos acontece enquanto fazemos planos para ela. Ou como dizia o outro: “Queres pôr Deus a rir? Conta-lhe os teus planos!”


Façamos de conta que o dia 29 não passou sem eu ter deixado aqui umas palavras de apreço pela vida e pela obra de Bernard Herrmann.

Bernard Herrmann foi o grande compositor do cinema de Alfred Hitchcock. Trabalhou durante mais de três décadas na criação de música para filmes e iluminou imagens de realizadores tão distintos como Orson Welles, Martin Scorsese ou François Truffaut.

A colaboração entre Hitchcock e Herrmann foi perfeita e paradigmática. É o exemplo de como um cineasta e um músico podem trabalhar em parceria criando juntos algo de luminoso e de único. A união das imagens dos filmes de Hitchcock com a música de Herrmann é exemplarmente harmoniosa. Como se Herrmann tivesse nascido para tornar genial o cinema de Hitchcock. E vice-versa: como se Hitchcock tivesse vivido para criar atmosferas propícias ao engenho de Herrmann.

Não me parece importante deter-me com pormenores biográficos sobre a vida deste homem de carisma artístico invulgar. Posso dizer que era oriundo de uma família de emigrantes judeus russos que se mudou para os Estados Unidos. Nasceu a 29 de Junho de 1911 na cidade de Nova-York. Estudou Música, desenvolveu contactos precoces com pessoas relevantes do universo das artes e decidiu muito jovem que queria ser compositor e maestro.

Trabalhou na rádio (na estação CBS) onde terá conhecido Orson Welles para quem compôs música em inúmeros programas de teatro radiofónico. A mais célebre e impressionante emissão radiofónica de Welles e Herrmann foi certamente uma adaptação realista de “A Guerra dos Mundos” de H. G. Wells.

Em 1941, Orson Welles realizou, escreveu e interpretou o seu primeiro filme: o aclamadíssimo “Citizen Kane”. E convidou o seu amigo Bernard Herrmann para criador da banda sonora da obra.

Nesse mesmo ano, Herrmann, então com 30 anos, recebeu um Óscar pelo seu trabalho em “The Devil and Daniel Webster” de William Dieterle.

Herrmann era um homem irascível e temperamental. O seu trabalho é a obra de um artista e pensador, devoto da arte musical e que gostava de reflectir sobre as suas potencialidades no universo cinematográfico.

Trabalhou na composição de bandas sonoras de dezenas de filmes e também compôs para televisão (música para episódios de séries famosas como “A Quinta Dimensão” ou “Alfred Hitchcock Apresenta…”)

Com Hitchcock concebeu algumas das suas obras-primas, entre elas “Vertigo” (1958) e “Psico” (1960). Mas também “Intriga Internacional” (1959) e “Marnie” (1964).

Sabem, meus amigos leitores, não entendo ao certo o que mais me sensibiliza e impressiona na música de Bernard Herrmann. A Música remete para emoções e as emoções nem sempre se explicam. Talvez possa ser a expressividade das suas criações musicais, a nostalgia que emana de certas partituras ou o efeito poético e harmonioso que produzem em nós.

A música de Herrmann expressa emoções. É verdade. Medo, ansiedade e amor. É uma música (quase sempre) criada para acompanhar imagens mas vive à margem delas e envia-nos para um universo onírico de sensações únicas.

Grande maestro (dizem que sentia um enorme prazer e realização pessoal a dirigir uma orquestra), Herrmann será certamente imortalizado pelo seu trabalho no Cinema. Esse trabalho que ele abraçou por um capricho insistente do destino.

Convido os meus leitores a visitarem o site do Bernard Herrmann Society que reúne inúmeros documentos e trabalhos de apreciação do grande compositor. (www.bernardherrmann.org) Já tenho colaborado no fórum do site, trocando ideias e partilhando conhecimentos com variadíssimas pessoas entusiastas da arte de Herrmann.

E claro para os grandes fãs de Herrmann há sempre a sua biografia escrita por Steven C. Smith em 1991 e intitulada “A Heart at Fire’s Center” (“Um Coração No Centro do Fogo”).

O prazer e o entusiasmo que o trabalho de Herrmann suscita são peculiares. Porque a sua música nem sempre é doce e afável. Nem sempre é meiga e confortável para os nossos ouvidos. Ele era um compositor arrojado. Às vezes ousava ser experimental e inovador. Outras vezes era mais convencional mas nunca desinteressante.

Convido também as pessoas que me lêem a visitar o site do British Film Institute (BFI), em Londres, onde irá decorrer durante o mês de Julho um interessante ciclo de filmes com música de Herrmann. Se a distância à capital inglesa fosse mais rápida e menos dispendiosa, talvez ousasse passar por lá…

Bernard Herrmann faleceu na noite de Natal do ano de 1975. Um dia depois de estarem completas as gravações relativas à banda sonora de “Taxi Driver” de Scorsese. Herrmann morreu cedo demais.

Dizem que Spielberg o admirava profundamente e talvez filmes como “Encontros Imediatos de 3º Grau” (1977) ou “Inteligência Artificial” (2001) fossem projectos que motivassem o empenho do compositor. Agora só podemos especular…

Sim. Bernard Herrmann deixou este mundo cedo demais. Ainda tinha muito para nos oferecer mas estava cansado e doente. O seu legado é extenso e não está verdadeiramente completo. Em 1991, Scorsese refez “O Cabo do Medo” a partir de um filme de 1962 e recorreu à banda sonora original de Herrmann e a excertos de uma partitura dele nunca usada.

Em 1998, Danny Elfman conduziu uma regravação de “Psico” para a modesta remake de Gus Van Saint. Há cerca de três anos, Quentin Tarantino incluiu “Twisted Nerve” de Herrmann na banda sonora de “Kill Bill”.

A magia e o talento de Bernard Herrmann permanecem vivos em brilhantes gravações digitais editadas nos mercados discográficos mundiais. Pela mão de pessoas empenhadas, de maestros atentos e de trabalhos de orquestra cuidados. Regrava-se e reedita-se Herrmann. Nunca antes Herrmann esteve tão próximo dos seus admiradores. E hoje graças à tecnologia da Internet alcança-se com uma facilidade inédita algumas das suas gravações mais raras.

Bernard Herrmann enriquece o quotidiano de muitas pessoas. Pode parecer estranho ouvir Herrmann no carro a caminho do emprego. Herrmann e não Tina Turner ou os U2. Mas o universo de Herrmann funciona como paralelo a todos os outros. Diferente e alternativo. Ontem como hoje. Hoje como amanhã. Dentro ou fora dos filmes. Anexado ou não a imagens. Esse é um dos seus encantos…

terça-feira, maio 30, 2006

NOVO LIVRO SOBRE HITCHCOCK EM LÍNGUA PORTUGUESA




O mínimo que posso afirmar acerca da edição portuguesa de “It’s Only a Movie” de Charlotte Chandler é que me proporcionou alguns dias de leitura muito agradável. Gosto de beber pausadamente o meu café numa esplanada; e de ler ou escrever enquanto mergulho nos universos que crio ou que outras pessoas conceberam.

O livro de Chandler é apresentado como uma incursão na vida e na obra de Hitchcock. Inclui testemunhos de muitas pessoas que conheceram e trabalharam com o Mestre do Suspense.
A autora é uma amiga de longa data da família Hitchcock e membro da direcção do Film Society of Lincoln Center. Já publicou um best-seller sobre a vida de Grouxo Marx e outro sobre Frederico Fellini que foi muitíssimo aclamado e traduzido. É uma senhora que se movimenta com facilidade entre grandes personalidades do Cinema e que tem colhido experiências relevantes.

“É Só Um Filme” permite prazer puro a qualquer hitchcockiano. No entanto, não sei até que ponto a minuciosidade de certos apontamentos é relevante para quem procure uma leitura ligeira. Nem sei se um cinéfilo não hitchcockiano poderá encontrar deleite nas páginas deste livro. Também não acredito que possa ser apreciado por uma pessoa indiferente à cinefilia.

De facto, as primeiras quarenta ou cinquenta páginas são deliciosas. Mas depois, a autora condensa notas e apontamentos e dispõe-nos numa ordem cronológica demasiado rígida.
Contava encontrar um livro que me revelasse muitas histórias inéditas. E também muitos episódios interessantes. E eles estão lá. Mas o tom é demasiado jornalístico e muito pouco literário.

As páginas finais relatam o drama de Hitchcock perante a sua debilidade física e defronte da doença da esposa. Chandler é contida. Não fala de si mesma nem procura avivar, de forma barata, as emoções do leitor. É muito precisa acerca da organização e da apresentação das informações.

“É Só Um Filme” é um livro biográfico escrito por alguém que conseguiu recolher testemunhos valiosos. Louvo a Editorial Bizâncio pela sua aposta neste livro.

Encontrei algumas histórias curiosas no decurso da leitura desta obra e uma oportunidade soberana para consolidar conhecimentos e impressões. O livro é um presente perfeito para qualquer hitchcockiano. Tanto mais que havendo dezenas e dezenas de obras sobre Hitchcock, poucas têm sido editadas em língua portuguesa e menos ainda em português de Portugal.

Aconselho o livro a quem procura conhecer melhor a personalidade de Hitchcock, o desenvolvimento do seu trabalho e o impacto das suas criações sobre o público; e sobre os actores, técnicos e músicos que se cruzaram com ele. É uma biografia sobre a influência da vida deste homem na vida dos outros.

Homem amado e detestado. Temido e venerado. Controverso e carismático. Surpreendentemente marcante. Ícone do Cinema do século XX. Este livro fala-nos do homem e da sua obra. Sem proezas literárias nem processos narrativos elaborados.

No percurso das páginas deste livro, é muito belo o sentimento de amor e dedicação que une Hitchcock à sua esposa Alma. Alfred Joseph e Alma foram companheiros durante mais de cinquenta anos. Trabalharam juntos, trocaram ideias, apoiaram-se mutuamente e dividiram entre si muito alento e esperança. A ideia de que Alma pudesse morrer antes de si preocupava intensamente Hitchcock nos seus derradeiros dias.

O consentimento de Alma, os seus conselhos e as suas opiniões eram indispensáveis para o cineasta do suspense. Alfred e Alma partilharam a paixão pelo Cinema e um grande e saudável espírito de romantismo. Não admira que a filha do casal, Patrícia Hitchcock, tenha proferido algures que este pode ser o livro mais interessante que leu sobre o seu pai.

Deixo aqui uma citação retirada da página 309. São palavras de Hitchcock: “Sou um homem cheio de sorte. Comecei muito cedo a fazer aquilo que queria fazer. E pude continuar a fazê-lo. Encontrei a companheira perfeita para a minha vida. Tivemos uma filha perfeita, Pat. Não mudaria nada na minha vida, senão o facto de ela ter de acabar.”

Na iminência do seu fim enquanto cineasta e enquanto ser humano, Hitchcock deixou evidenciar uma fragilidade crescente. Mas também um regozijo por ter sido presenteado com tantas dádivas.

Uma nota final: Já escrevi, não sei bem em que artigo, que Hitchcock foi sepultado, sendo secreta a localização da sua campa. Aprendi com Chandler que não é verdade. O corpo de Hitchcock foi cremado e as suas cinzas deitadas ao Oceano Pacífico. O mesmo destino encontrou Alma Reville Hitchcock. Acredito que algures se terão encontrado. Ou que ainda se vão reencontrar.

Hitchcock terá dito também: “Os filmes são a minha vida mas, mesmo que não possa fazer mais nenhum, gostava de continuar vivo… enquanto a Madame estiver viva. Nunca poderei estar bem se ela estiver doente. A nossa vida a dois é agora tão próxima como ontem, tão afastada como amanhã.” (página 310)

Acredito que, amanhã, Alfred Joseph e Alma estarão bem próximos. Amanhã como ontem. Quero acreditar que sim. Nos filmes de Hitchcock, nem sempre os factos faziam sentido e eram justos. Mas a lógica de Deus talvez seja diferente… Tem de ser diferente.

sábado, maio 20, 2006

O MEDO DO FRACASSO



É um ímpeto natural em muitas pessoas. A necessidade de agradar. A ânsia ou a vontade mais ou menos expressa de que gostem de nós. O desejo de que o nosso trabalho ou a nossa acção sensibilize os outros, e os afecte na exacta medida em que o quisermos.

Afinal o ser humano é um ser gregário. Vive espontaneamente em sociedade e precisa de se integrar nela mediante um código de identificação do mundo e mediante regras social e culturalmente estabelecidas.

Recordo-me de uma cena precisa em “Vertigo”. James Stewart comenta: “Há quem prefira viver sozinho.” E logo Kim Novak responde enigmaticamente: “Mas está errado.” Ela confere um dramatismo às palavras que sempre me sensibiliza e move para uma aversão à solidão. Ou para uma aversão ao isolamento…

Solidão? É uma tragédia se precisamos dos outros ou necessitamos deles para nos sentirmos vivos. Mas a necessidade de sermos aceites é diferente e pode causar um pânico particular em relação ao fracasso.

Há artistas que pensam muito no público que vai admirar a sua arte. Outros nem se interessam em saber se o seu trabalho vai ser valorizado ou não. No domínio do Cinema e no contexto de uma máquina industrial como a de Hollywood, o cineasta precisa assegurar que o seu trabalho vai agradar ao público. Os produtores impõem a necessidade de lucros e o índice de popularidade de um filme pode conduzir ou não o seu realizador ao patamar da fama e do reconhecimento.

Quando uma obra é bem aceite, o grau de aceitação depende das expectativas. Alfred Hitchcock sempre trabalhou no sentido de seduzir o seu público. No início da sua carreira, ele nem sempre terá filmado as histórias que mais o interessavam. Precisava da tal fama e do tal reconhecimento. E tinha de lutar para os conseguir.

O grande “Inquilino Sinistro” de 1926 pode ser considerado um dos mais brilhantes clássicos do cinema inglês pré-sonoro. Mas a provar como tudo é relativo, o filme não foi acolhido com um grande entusiasmo inicial pelos produtores e ninguém acreditou muito que viesse a ser um triunfo.

De sucesso em sucesso, Hitchcock concebeu o primeiro filme sonoro inglês, “Chantagem” (1929), e o êxito de popularidade que foi “O Homem Que Sabia Demasiado” (1934). Seguiram-se-lhes “Os 39 Degraus” (1935) e “Desaparecida” (1938).

Em Inglaterra, nos anos 30, Hitchcock era um jovem cineasta respeitado e venerado. Mas em 1939 terá aceitado o desafio de se mudar para a capital mundial dos filmes, a Meca do Cinema que é Hollywood.

É transparente que, dos anos 40 para os 50, o seu estilo pessoal se refinou. Sempre com o desejo de explorar as emoções do espectador. Sempre filmando com o pensamento centrado na perspectiva de quem vai ver as imagens.

Hitchcock reuniu em torno de si um grupo de técnicos muito competentes e com os quais desenvolveu uma empatia e uma familiaridade importantes. Eles sabiam o que ele queria. Ele sabia o que podia esperar deles e em que medida eles podiam ajudá-lo a construir um projecto cinematográfico.

Depois de 1963, Hitchcock começou a ter dificuldades em superar o seu melhor. Costuma escrever-se que o difícil não é atingir o estrelato mas sim manter uma posição cimeira. Os últimos cinco filmes do Mestre constituem uma fase de declínio na sua criatividade e na manifestação do seu poder artístico. Acredito que a sua angústia nesses anos fosse como a de alguém que não quer deixar de ser amado.

François Truffaut, célebre cineasta francês, escreveu algumas linhas na edição definitiva do seu livro “Hitchcock/Truffaut” (publicada em 1983). Linhas sobre os anos derradeiros da vida de Hitchcock. E sobre a sua amargura e tormento mediante o declínio da sua popularidade e poder.

Afinal todos gostamos de ser aclamados com sucesso. Para um artista, a necessidade do aplauso do seu público torna-se imperiosa. Dizem que é uma droga que vicia. Não é com indiferença que um realizador sente o afastamento das audiências. Muito menos um realizador sensível como Hitchcock que ofereceu a sua vida ao Cinema.

Recordo-me dos dias em que tinha aulas de piano com uma amável e delicada senhora. Estudava a lição e tocava razoavelmente a partitura. Quando me saía airosamente, logo ele me dizia: “Muito bem! Vejo que estudaste! Tocaste bem! Consegues tocar uma segunda vez tão bem assim?”

Meus amigos, se a boa impressão causada quase não tinha máculas, o meu receio de errar era maior e o peso da responsabilidade duplicava. Sim. Tinha estado na véspera a estudar até às 2 da Manhã. Mas era preciso que isso se notasse. Que o meu esforço fosse evidente. Que aquela senhora gostasse cada vez mais de mim e acreditasse no meu talento. Tocava uma segunda vez. Mas os dedos tremiam-me, o medo do insucesso se não era visível, era bastante limitador. Os dedos tacteavam as teclas e eu parecia não ver nada na pauta. Começava a transpirar e os próprios dedos ficavam humedecidos e humedeciam as teclas. Acabava sem glória ou interrompia a interpretação desistindo de um esforço que se revelava infrutífero.

Então pensava: Como será tocar perante uma plateia com milhares de pessoas? Se me atrapalhava e afligia na presença de uma senhora tão meiga e compreensiva, alguma vez seria capaz de aceitar o facto de estar a ser ouvido pelos outros?

Na verdade, um momento de glória acontece a muitas pessoas. Difícil é conviver continuadamente com a glória sem perder a segurança e a estabilidade emocional. É que o excesso de orgulho pode corromper as qualidades pessoais. E o medo do fracasso pode asfixiar a acção de um criador.

Hitchcock sempre conhecera o sucesso e o insucesso. Mas nunca o seu nome brilhou tão intensamente como nos primórdios da década de 60. Desde então, Hitchcock começou a competir consigo mesmo. Precisava responder às expectativas das pessoas. Surpreender, abismar crescentemente as audiências. Mas ele começava a estar velho, cansado e doente. Calculo que se sentisse inseguro. Trabalhou até poder e só desistiu de trabalhar meses antes da sua morte.

O medo do fracasso também terá corroído a sua alma. O medo… Que ele sempre conhecera tão bem. Que sempre sentira na pele. E conseguira transpôr com virtuosismo para o universo dos filmes e para a linguagem cinematográfica.

Quem lhe poderá levar a mal? O homem que, desde pequeno, aprendera a familiarizar-se com a solidão e o isolamento, fintara o seu destino. Era uma lenda viva do Cinema apesar do seu aspecto rotundo e de uma timidez aguda. Quem gosta de perder o amor dos outros? Quem não tem medo do fracasso? Quem não tem medo de desiludir?

quarta-feira, maio 10, 2006

ACREDITAR É PRECISO - CONCLUSÃO


Há uma história paradigmática na vida de Hitchcock: num dia, indo ele a deslocar-se de automóvel, viu um jovem rapazito a ser acompanhado por um padre de batina comprida. Aquela imagem trouxe-lhe apreensão. Ficou consternado e terá gritado da janela aberta do automóvel: “Run for your life!” (podemos traduzir por “Corre pela tua vida!”)

Os padres recordavam-lhe o colégio de jesuítas e o severo ambiente que lá se vivia. Mas na realidade, Hitchcock não era adverso ao espírito do Catolicismo. “Confesso” (1952) e “O Falso Culpado” (1957) são dois belos filmes que debatem as temáticas da culpa, da justiça (divina e terrena) e do amor. E que confrontam o espectador com as temáticas da crença e da fé.

Não são perfeitos exemplos de obras de suspense. O nome de Hitchcock está mais associado a um estilo muito específico de histórias de crime e de terror psicológico. No entanto, são dois dos mais maduros filmes do Mestre quando verificamos que os seus personagens são perfeitos exemplos da Humanidade, seres humanos com tudo o que a Humanidade tem de bom e de mau. E são também, à sua maneira, histórias de crime e de terror psicológico.

O Padre Logan em “Confesso” é acusado de um assassinato e sabe quem é o criminoso. Não pode revelar o que sabe porque as preciosas informações de que dispõe lhe foram reveladas no sacramento da Confissão. Os padres não podem (perante Deus em Quem acreditam e perante a Igreja à qual prometeram obediência) revelar os segredos expressos no confessionário.

Este filme de Hitchcock é a história de uma vítima. Vítima de uma injustiça divina (como pode Deus trair a lealdade do Padre Logan?); de uma injustiça institucional e social.
E depois há a relação amorosa com uma mulher que em tempos amou… (e não ama ainda?) O que nos convoca para a polémica questão da obrigatoriedade do celibato dos padres católicos.


“Confesso” é a história de lealdade de um homem aos seus valores. Debate o tema da culpa. E culmina com uma absolvição. O criminoso pede ao padre que o perdoe. Pede perdão perante o homem que traiu. E pede a Deus que elimine os seus pecados ou o peso da sua culpa.

Montgomery Clift deambula, a meio do filme, pelas ruas da sua terra no Quebeque dos anos 50. Vê-se a Cruz que Cristo carrega e também ele parece arrastar a sua própria cruz. Eis outro conceito muito importante no Cristianismo em geral e no Catolicismo muito em particular: O conceito de Cruz que todo o ser humano precisa forçosamente suportar e do qual não pode fugir.
No Tribunal, vemos um crucifixo de grandes dimensões para além da figura do Padre Logan que está a depor na cadeira do réu.


A ideia de Cristo crucificado, admite Hitchcock ter-lhe passado pela ideia quando, em “O Inquilino Sinistro” (1925), filmou o pobre homem inocente pendurado sob as algemas que o mantêm cativo a uma grade. Esse é o primeiro grande filme de Hitchcock, tipicamente hitchcockiano. E lá está o debate sobre o tema do homem inocente, falsamente acusado.

“O Falso Culpado” é também um belíssimo filme. Realizado cinco anos depois, em 1957, é um filme denso e dramático. Aqui um homem bom, Manny Balestrero, é acusado de crimes que não cometeu e sentenciado injustamente a um humilhante processo de investigação onde é tratado com desprezo. Mais uma vez se questiona a justiça divina e a justiça do mundo.

O homem não perde a sua fé. Inclina-se sobre o seu sofrimento e sobre o da esposa que vai caminhando para a loucura. Com um terço do rosário nas mãos e um desejo fervoroso de lutar pela defesa da sua liberdade e do seu bom-nome.

Henry Fonda dá corpo, voz e expressão a este personagem. E Hitchcock brinda-nos com um filme em que (como em poucos outros da sua obra) os actores são soberbos e intensamente convincentes.

Há quem detecte uma perspectiva documental nesta obra. Tratando-se de uma história baseada num caso verídico, Hitchcock poderá ter querido realizar uma obra realista, fiel à realidade e terá filmado como se passeasse as câmaras dentro da própria vida de Manny Balestrero. Captando os seus sinais e os seus gestos. Filmando o aprisionamento de um homem inocente dentro de uma realidade implacável. E não menosprezando o contexto do ambiente urbano da cidade de Nova-York.

Que pode fazer um homem perante as injustiças? Em que medida pode lutar por si e por aquilo que defende? Balestrero reza diante de uma imagem de Jesus Cristo. E o verdadeiro criminoso é identificado. Quase como se da imagem de Cristo nascesse um milagre.

Que pode um homem fazer perante o que não é justo? Balestrero recuperou a liberdade e limpou o seu nome mas nada apagará o sofrimento que viveu e que quase o definhou. Nada ou quase nada poderá trazer de volta a sanidade mental da sua mulher Rose (intensamente interpretada por Vera Miles).

Como “Vertigo” que Hitchcock realizaria um ano depois, “Falso Culpado” é um filme sobre a angústia. E como em “Vertigo”, é filmado o corredor de um hospício de forma trágica e comovente. Em “Vertigo”, é Barbara Bel Geddes quem caminha ali com enorme desalento, passo a passo, carregando o enorme desgosto de quem perdeu tudo na vida. Em “O Falso Culpado”, a cena final apresenta-nos Henry Fonda, indefeso e impotente mediante a trágica condição da sua mulher. Rose estará louca ou quase. E ele terá pago uma sentença pesada por crimes de que sempre esteve inocente.

Justiça divina? Existe justiça divina? Eu acredito que há uma ordem no Cosmos e que o Big Bang não pode ter surgido à toa. Acomodo-me às minhas crenças e acredito na segurança que elas me oferecem.

É preciso acreditar. Para além das tragédias e da completa injustiça de certas realidades, devemos continuar a acreditar em qualquer coisa. É difícil compreender a condição humana num universo de proporções gigantescas onde Deus não nos profere verbalmente uma palavra. Mas enquanto acreditarmos nos valores mais belos da nossa existência, poderemos ver o mundo com um olhar mais sereno.

Não é preciso acreditar em Deus para se ser exemplar. O exemplo de santidade que um ser humano pode oferecer provém das suas acções. Na verdade, o homem religioso não pode provar que Deus existe e o homem ateu não pode provar que Deus não existe. Mediante a nossa condição, só no resta optar por levar vida e alegria onde elas não existirem…

Hitchcock terá assimilado o conceito mais severo de culpa. E por isso, as histórias dos falsos culpados se desdobram na sua obra. Afinal quase todos nós pagamos por crimes que não cometemos.

Há crianças a morrerem de fome, de minuto para minuto. Há seres humanos maravilhosos vitimados por doenças horríveis ou ceifados por acidentes que os deixam suspensos numa vida sem dignidade nem alento de qualquer tipo.

Podemos acreditar no valor da Justiça (divina e terrena)? Ainda assim, e apesar de tudo, acredito que sim. Acredito que podemos oferecer espaço à esperança. E Acreditar é mesmo preciso!

quarta-feira, abril 26, 2006

ACREDITAR É PRECISO - PARTE I





Num mundo repleto de tragédias e de ansiedades, é preciso acreditar em qualquer coisa. Como alguém disse: “De que serve ter liberdade se não houver vontade?” Realmente só o ímpeto para alcançar um objectivo, a motivação para construir um castelo de areia ou uma Torre Eiffel é que fazem a Vida ter sentido.


Se não sentir desejo de nada, se nada buscar, se em nada acreditar, o ser humano não vive verdadeiramente mas simplesmente vegeta. Como uma planta, uma árvore ou uma flor. Os dias passam corriqueiros, o amanhecer e o anoitecer são rotinas desapaixonantes. Não há paixão de viver. Não há entusiasmo.

É preciso acreditar em qualquer coisa. Num ideal, num valor, num projecto, numa centelha de vida a que nos agarremos com quantas forças temos.

Compreenderão que não sou nada adverso à religião. Porque pode ajudar os seres humanos. Porque pode conferir sentido ao encadeamento dos acontecimentos. Porque pode ser um abrigo debaixo do qual um homem se refugia quando caem raios e coriscos; e onde não chega (tão facilmente) o medo e a desorientação.

Parto para esta reflexão, tomando o exemplo específico de dois filmes de Hitchcock mas não menosprezando a perspectiva da obra global do Mestre e o seu pensamento e educação. As obras são "Confesso" (1952) e "O Falso Culpado" (1957).

Acredito que é preciso ter fé em princípios sãos e construtivos. Perguntar-me-ão: onde estão esses princípios e quais são? Podemos falar de religião.

Sem dúvida que há muitas religiões no mundo. É perfeitamente subjectivo advogar que uma delas é mais verdadeira do que as outras. Na realidade, não me interessa defender uma religião específica.

Se sou católico, não posso ter uma fé plenamente budista. Se sou judeu, as práticas dos feiticeiros de uma tribo africana não me sensibilizam nem eu acredito nelas.

Não. Falo-vos da importância de acreditar. E a religião assenta no princípio da crença, constrói os seus alicerces não num raciocínio lógico e dedutivo ou indutivo mas num tipo de crenças: a fé.

Diz-se que a fé move montanhas. Acreditem que estudei Antropologia e confrontei o peso subjectivo de cada religião face às outras. Talvez por isso me interesse mais procurar pontos de encontro entre as culturas e as religiões do que em definir pontos de divergência.

Afinal, hoje é admissível defender que todas as religiões podem ser construtivas e podem cimentar a paz, a harmonia e a concórdia entre as nações. Mas foi preciso deixar passar muitos séculos para que se pudesse estabelecer uma relação harmoniosa (e até complementar) entre ciência e fé.

Na Europa Ocidental e nomeadamente no âmbito da Igreja Católica, as cruzadas e as guerras santas não fazem sentido à luz de um pensamento moderno que pondere o papel da Razão e o peso da Fé. Matar em nome de Deus? É absurdo!
(Os americanos matam em nome de valores e de interesses quiçá políticos e económicos. Os mesmos americanos aplicam a pena de morte, remediando um crime com outro crime. Mas os americanos não matam em nome de uma religião!)

Os fanatismos do tempo da Inquisição cederam lugar, no mundo ocidental, a uma reflexão mais serena sobre o mundo e sobre a vida.


Sou religioso, aceito o meu amigo católico, o meu amigo budista, o meu amigo muçulmano e o meu amigo ateu. O que hoje a religião pode cimentar é o espírito de concórdia. Gosto de pensar na união dos povos no seio das suas diferenças.

Na minha opinião, os terroristas do Médio Oriente não podem ser homens religiosos. Quando oferecem a sua vida e a de milhares de vítimas inocentes a Alá, fazem-no a partir de uma versão degenerada do espírito religioso do Islão. Não confundamos crença com fanatismo lunático. Nem com o desejo de impôr a vontade própria à dos outros, sacrificando vidas humanas se for preciso.

Na verdade, é preciso acreditar. Quase sempre a crença religiosa é construtiva se impuser harmonia entre os povos e conferir sentido à nossa vida.

Uma religião traduz um código de valores. Bem vemos no espírito de Hitchcock os sinais de um realizador marcado por uma educação católica severa, punitiva, instigadora de sentimentos de culpa. Acreditem que não fico nada feliz quando penso em homens de Deus que revelam ao mundo maus exemplos de vida. Mas não tomemos o todo pelas partes.

O que é notícia nos jornais é o homem que morde o cão e não o cão que morde o homem. Por muitos maus exemplos que possamos encontrar na vida de homens religiosos, haverá tantos outros bons exemplos de que ninguém nunca fala. A erva nos campos verdes está sempre a crescer mas nós não vemos o seu crescimento a olho nu. Ela cresce mas não é evidente à nossa vista que, de um minuto para o outro, ela tenha evoluído e se tenha desenvolvido.

Observe-se o Padre Logan de “Confesso” (1952) ou o Manny Balestrero de “O Falso Culpado” (1957). Eles podem bem ser exemplos de homens que acreditam nos seus valores. É coerente uma equiparação entre estes dois filmes. São histórias sobre homens acusados de crimes que não cometeram. E homens que entregam os seus destinos nas mãos do deus em que acreditam.

Hitchcock tinha um medo especial dos polícias (e da ideia da prisão). Mas no íntimo da sua consciência, ele tinha temor dos padres também. Porque foram eles que ajudaram a cimentar o seu medo, o seu receio do castigo e da punição e o seu conceito de culpa.

Sabemos aliás que o Catolicismo atribui um espaço perigosamente relevante à ideia de culpa. Culpa pelos pecados que cometemos, pelas ideias que ousamos construir ainda que involuntariamente, pelas palavras e acções que poderíamos ter proferido em proveito dos outros e que não proferimos… Culpa afinal pelo pecado de Adão e de Eva com que todos nascemos e que só será aniquilado pela acção do sacramento do baptismo.

Esta ideia de culpa preocupa-me. Eu próprio me culpabilizo em imensas ocasiões por motivos menores. Prefiro pensar no lado mais sadio da Humanidade, nos gestos generosos que é capaz de erguer. Há muita bondade no mundo embora exista um instinto muito espontâneo nos seres humanos para a violência e para o egoísmo.

Receio que essa ideia de culpa esteja imanente em muitos dos personagens de Hitchcock e em nós próprios enquanto espectadores dos filmes e enquanto nos identificarmos com os heróis dessas histórias. Poucos heróis hitchcockianos estão completamente isentos de culpa.

Por isso se escreve que Hitchcock era um realizador católico. Não porque fosse à missa e comungasse. Mas antes porque havia assimilado a teologia católica e a havia transposto (consciente ou inconscientemente) para as suas obras. E nessa teologia, o peso da culpa humana é muito relevante.

segunda-feira, abril 17, 2006

A SEXUALIDADE NA OBRA DE HITCHCOCK - CONCLUSÃO



Para abordar a temática da Sexualidade, Hitchcock (e todos os realizadores e argumentistas do seu tempo) precisavam recorrer a muita argúcia e engenho. Imagino que, para Hitchcock, a vertente sexual dos seus heróis e vilões fosse um patamar interessantíssimo.

Mas é preciso não ignorar que Hitchcock, ele mesmo, recebera uma instrução católica severa. Aos 25 anos, ele não sabia o que era a homossexualidade e revelou-se muito curioso e intrigado quando se cruzou pessoalmente com um casal de lésbicas. Também por esses dias, ele terá admitido não fazer ideia do que era a menstruação.

Hitchcock foi marido de uma mulher apenas e não consagrava interesse relevante à vertente sexual da sua vida. Havia quem o apelidasse de celibatário.

Por contraste com a sua pessoa, o herói hitchcockiano é uma figura de aspecto físico exemplar – modelo Cary Grant. Homem alto, elegante, sedutor, a quem as mulheres sucumbem com facilidade. Homem sensível, emocional e apaixonado – modelo James Stewart (ou Gregory Peck em “Casa Encantada” (1945))

O herói hitchcockiano é o oposto de Hitchcock, ele mesmo. Seduz e é seduzido. Apraz-se de conquistar. (Rod Taylor é assim em “Os Pássaros”. Também Sean Connery em “Marnie”) Alfred Joseph só terá conhecido maritalmente a sua pequenina e estimada mulher Alma Reville. (Há quem diga que não foi exactamente assim mas as histórias em relação a gente famosa desdobram-se e multiplicam-se.)

Quando ouvimos Hitchcock referir-se ao sexo como factor paralelo ao assassínio e ao crime, não podemos deixar de nos deleitar com a sua ironia. Ele fala assim no trailer da colecção “The Essential Hitchcock”. Em termos de marketing e de estratégias publicitárias, o sexo vende.

No cartaz de “Marnie” (1964) lemos: “DE ALFRED HITCHCOCK, COM SEXO E SUSPENSE!”

Para ser exacto, quase todas as mais ousadas cenas filmadas por Hitchcock parecem hoje inocentes e inofensivas. Só em “Frenzy – Perigo na Noite” (1972), o panorama visual e narrativo é drasticamente diferente. Num esforço de acompanhar os cineastas do seu tempo, Hitchcock terá filmado “Frenzy” com uma inesperada e crua vontade de chocar.

Há aqui imagens de nudez e de brutalidade física e emocional. O filme apresenta uma concepção inteiramente perversa do sexo. O psicopata sente prazer em estrangular as mulheres que viola, ideia que por si só ilustra uma completa perversão do prazer sexual. (Atenção que ainda estávamos a 20 anos de distância do genial mas selvagem “Silêncio dos Inocentes” de Jonathan Demme.)

As mulheres em “Frenzy” são feias, desinteressantes. O corpo nu de uma das vítimas é juntado a uma enorme porção de batatas. Em todo o filme, há uma equiparação entre a função alimentar e a função sexual. Os vegetais e os frutos são filmados com o mesmo desprendimento emocional com que é filmado o corpo da pobre mulher. Tudo é demasiado perverso, violento e obsceno. Hitchcock aligeira o ambiente com alguns golpes de humor mais ou menos explícitos.

Viviam-se os anos de “Cães de Palha” (1971) de Sam Peckinpah; “Laranja Mecânica” (1971) de Stanley Kubrick; “O Padrinho” (1972) de Francis Ford Coppola; e “Deliverance” (1972) de John Boorman. Um ano depois viria “O Último Tango em Paris” (1973) de Bernardo Bertolucci. Em 1974, Tobe Hooper filmaria de uma forma densamente macabra a mesma história que inspirara “Psico”: em “Massacre no Texas”.

Hitchcock deve ter sentido receio de ser ultrapassado pela nova geração de cineastas. A sua popularidade estava em queda e ele conhecera alguns fracassos financeiros.
Terá arriscado filmar o sexo como nunca o havia feito.

Mas ele era bem melhor a mostrar a verdade escondida e a construir suposições e fantasmas difusos de todos os tipos. Por isso, “Frenzy” parece alho inusitado. E não é um filme tipicamente hitchcockiano embora lá estejam alguns temas recorrentes na sua obra.

Penso que uma obra cinematográfica moderna deve lidar com a temática da Sexualidade com desenvoltura e maturidade. Sente-se que na Hollywood dos anos 40 e 50 havia uma delimitação exagerada das fronteiras, um zelo moralista que quase nunca era eficaz. Por isso, algumas obras clássicas estarão hoje tão datadas.

Receio que de um tipo de excesso se tenha evoluído para outro tipo de excesso emergente nos anos 70. O Cinema moderno tem desenvolvido uma atenção desregrada aos pormenores de índole sexual. E nem sempre com fineza e sensatez. O Sexo tem sido explorado de mil e uma formas.

Encontramos hoje cenas eróticas em filmes onde têm razão de existir. Mas também em filmes onde não eram de todo precisas e são descabidas. É difícil estabelecer uma linha que demarque as fronteiras entre o bom e o mau senso. Será mesmo uma tarefa intrincada e subjectiva.

Todos concordarão que o filme “De Olhos Bem Fechados” (1999) de Kubrick é uma bela peça cinematográfica sobre o universo psicológico e onírico da natureza humana. Que em “Atracção Fatal” (1987) e em “Instinto Fatal” (1992) é recriado o universo mais feroz e perigoso das tentações carnais. Que em “Era Uma Vez na América” (1984) de Sergio Leone, ou em “Dogville” (2003) de Lars von Trier, a brutalidade física e sexual está realisticamente bem recriada a ponto de ser difícil de suportar.

Afinal estes são bons exemplos cinematográficos de como pode um cineasta manipular esta temática com resultados eficazes.

Presumo que se levássemos o jovem Hitchcock de 25 anos a ver “Mulholland Drive” (2003) de Lynch, ou qualquer coisa do género, tê-lo-íamos que trazer para fora da sala de cinema com um chapéu a tapar-lhe as faces coradas de vergonha.

sexta-feira, abril 07, 2006

A SEXUALIDADE NA OBRA DE HITCHCOCK - PARTE I





O Tema da Sexualidade no Cinema é frequentemente controverso e, não raras vezes, difícil de trabalhar com eficiência. Atrai seriamente a atenção de muitas plateias e desperta um interesse generalizado. Mas é um assunto delicado e polémico.

A celeuma em torno deste tema é peculiar. O Sexo é dos fenómenos mais genuínos da Natureza. E dos mais espontâneos também. Mas é um fenómeno complexo em termos comportamentais, éticos e culturais.

Quando alguém se refere a Sexo no Cinema é pertinente que se pergunte: Que tipo de valores sexuais se deve mostrar? Onde começa e acaba o bom senso? Deveremos enterrar a cabeça na areia (como faz a famosa avestruz) e tentar ignorar que certas realidades existem? É lícito mostrar e mencionar tudo?

O pormenor do Erotismo nos filmes é muito importante na arte cinematográfica. A beleza do Erotismo Cinematográfico é que seduz por não mostrar o evidente. Se considerarmos que a sexualidade humana está em todos nós, compreenderemos facilmente que o domínio dos desejos e das tentações carnais seja fundamental na psicologia de muitos personagens.

Alfred Hitchcock nunca gostou do óbvio. No domínio da Sexualidade, uma loira aparentemente fria e contida podia, para ele, ser muito mais excitante do que uma mulher ostensivamente promotora da sua sensualidade. Ele não gostava do modelo da actriz com o “sexo estampado no rosto”. (palavras suas) E citava o exemplo de Marilyn Monroe que nunca sentiu interesse em convidar para um filme.

Podemos estabelecer que o modelo ideal para Hitchcock era Grace Kelly. Pergunto-me: Ele gostava de Kelly porque ela era loira ou gostava das loiras porque Kelly era uma delas?

Kelly era uma mulher deliciosamente elegante e sofisticada. Uma Grace Kelly misteriosa e enigmática podia ser como Kim Novak em “Vertigo”, Tippi Hedren em “Marnie” ou Eva Marie Saint em “Intriga Internacional”.

A mulher inteligente e fria revela-se muito mais entusiasmante no cinema de Hitchcock do que a mulher carnal e transparente. A mulher morena é como que a mulher do homem comum. A mulher loira é uma mulher inacessível e endeusada.

Não podemos ignorar que Hitchcock realizou filmes durante cinco décadas e sofreu muitas imposições dos que mandavam mais do que ele.

Os senhores da Censura nos anos 40 e 50 eram intensamente influentes na delineação de tudo o que se mostrava num filme ou se fazia subentender.

Em todos os aspectos, era o mistério que mais seduzia Hitchcock e é o mistério nos seus filmes que cativa público. Hoje como outrora. Isto também se aplica à vertente sexual da sua obra. Também na forma como filmava as emoções contidas e os beijos carregados de paixão.

As cenas de amor em “Difamação” (1946) unindo Cary Grant a Ingrid Bergman são densamente envolventes. Também o belíssimo beijo de Grace Kelly a James Stewart em “Janela Indiscreta” (com um fantástico efeito visual). Ou a cena em que Grace Kelly e Cary Grant se deixam arrebatar pela paixão em “Ladrão de Casaca” (1955) – Repare-se como o lançamento simultâneo do fogo de artifício tem uma forte conotação sexual.

Quase sempre o beijo na boca era o expoente máximo da sexualidade visível aos olhos do espectador. Todo o resto era pressuposto, sugerido, contado ao espectador por meias palavras.

Eram os tempos de uma censura que não deixava mostrar muito, que cortava diálogos e aspectos importantes se os considerasse subversivos. Em que as grandes produções não podiam desrespeitar as normas vigentes. Em que ninguém se atrevia a ir além de um limite bem traçado e intransponível.

Hitchcock, tal como os cineastas seus contemporâneos, precisava recorrer a linguagens codificadas e a estratégias de sugestão de ideias. Como decorrente disso, e porque se usava um código, hoje os jovens não conseguem encontrar nos filmes antigos as referências de cariz sexual. Elas estão demasiado ocultas.

UM EXEMPLO ILUSTRATIVO – Forma discreta de insinuar que dois namorados vivem juntos embora não sejam casados: Ele está na casa dela, vai à cómoda buscar um lenço, sabe precisamente em que gaveta está e retira-o sem pedir a ninguém. O público pressupõe então uma relação entre aquele homem e aquela mulher que vai certamente além das fronteiras de um namoro cândido.

Estranho e curioso? Um pouco. Há histórias desta índole na obra de Hitchcock. Modos de fintar o excesso de zelo dos censores. Alguns podem transcender a percepção do espectador comum. Por exemplo, apresentar a Coit Tower em “Vertigo” (1958) junto à casa de James Stewart como expressão simbólica do seu desejo sexual. A ideia, li-a numa entrevista feita a Hitchcock. Parece-me interessante mas muito pouco impressiva nos nossos dias. Estranha e quase descabida.

Hoje há intensa liberdade para filmar o que se quer e como se quer. Nos Estados Unidos, se um filme for considerado material exclusivamente apropriado para adultos, provavelmente vai mesmo ser visto por jovens (quando sair em DVD ou passar num canal de televisão por cabo). Quase sempre os bois são chamados pelos seus nomes. E já não há inibições em séries de TV como “Sete Palmos de Terra”, “Os Sopranos” ou “Anjos na América”.

Perante o panorama actual, as ousadias de outros tempos são hoje demasiado subtis. Não é evidente que os protagonistas de “A Corda” (1948) sejam homossexuais. Ou que Martin Landau em “Intriga Internacional” (1959) sentisse ciúmes de Eva Marie Saint na medida em que ele amasse o seu patrão James Mason.

A ingénua abertura de “Psico” (1960) escandalizou muitos espectadores porque apresentava uma jovem solteira e um homem divorciado, deitados na cama do quarto de uma pensão. Haviam claramente tido relações sexuais e ela nem almoçara para se entregar às carícias e ao amor do amante.

Seis anos mais tarde, em “Cortina Rasgada” (1966), também encontramos Paul Newman e Julie Andrews, supostamente nus (ou quase) debaixo do calor dos lençóis e dos cobertores. Os tempos traziam mudanças culturais. Mas várias ligas de moralidade decidiram advertir os pais de família a não levarem as suas crianças àquele filme. Julie Andrews não apresentava em “Cortina Rasgada” um modelo edificante. Não era mais a preceptora mágica de “Mary Poppins” (1964) nem a noviça ingénua de “Música no Coração” (1965). Por isso, dada a insensatez daquela cena, o filme podia veicular maus valores morais.

Meus amigos leitores, face ao que estamos habituados a contemplar hoje nas telas de cinema e nos écrans de televisão, estas histórias parecem quase descabidas e caricatas. Só passaram 40 anos e, nestas décadas, a aproximação cinematográfica à temática da Sexualidade sofreu uma incrível reorientação. De 1966 para 2006, os passos dados foram gigantescos… Embora nem sempre com resultados felizes…