

É um ímpeto natural em muitas pessoas. A necessidade de agradar. A ânsia ou a vontade mais ou menos expressa de que gostem de nós. O desejo de que o nosso trabalho ou a nossa acção sensibilize os outros, e os afecte na exacta medida em que o quisermos.
Afinal o ser humano é um ser gregário. Vive espontaneamente em sociedade e precisa de se integrar nela mediante um código de identificação do mundo e mediante regras social e culturalmente estabelecidas.
Recordo-me de uma cena precisa em “Vertigo”. James Stewart comenta: “Há quem prefira viver sozinho.” E logo Kim Novak responde enigmaticamente: “Mas está errado.” Ela confere um dramatismo às palavras que sempre me sensibiliza e move para uma aversão à solidão. Ou para uma aversão ao isolamento…
Solidão? É uma tragédia se precisamos dos outros ou necessitamos deles para nos sentirmos vivos. Mas a necessidade de sermos aceites é diferente e pode causar um pânico particular em relação ao fracasso.
Há artistas que pensam muito no público que vai admirar a sua arte. Outros nem se interessam em saber se o seu trabalho vai ser valorizado ou não. No domínio do Cinema e no contexto de uma máquina industrial como a de Hollywood, o cineasta precisa assegurar que o seu trabalho vai agradar ao público. Os produtores impõem a necessidade de lucros e o índice de popularidade de um filme pode conduzir ou não o seu realizador ao patamar da fama e do reconhecimento.
Quando uma obra é bem aceite, o grau de aceitação depende das expectativas. Alfred Hitchcock sempre trabalhou no sentido de seduzir o seu público. No início da sua carreira, ele nem sempre terá filmado as histórias que mais o interessavam. Precisava da tal fama e do tal reconhecimento. E tinha de lutar para os conseguir.
O grande “Inquilino Sinistro” de 1926 pode ser considerado um dos mais brilhantes clássicos do cinema inglês pré-sonoro. Mas a provar como tudo é relativo, o filme não foi acolhido com um grande entusiasmo inicial pelos produtores e ninguém acreditou muito que viesse a ser um triunfo.
De sucesso em sucesso, Hitchcock concebeu o primeiro filme sonoro inglês, “Chantagem” (1929), e o êxito de popularidade que foi “O Homem Que Sabia Demasiado” (1934). Seguiram-se-lhes “Os 39 Degraus” (1935) e “Desaparecida” (1938).
Em Inglaterra, nos anos 30, Hitchcock era um jovem cineasta respeitado e venerado. Mas em 1939 terá aceitado o desafio de se mudar para a capital mundial dos filmes, a Meca do Cinema que é Hollywood.
É transparente que, dos anos 40 para os 50, o seu estilo pessoal se refinou. Sempre com o desejo de explorar as emoções do espectador. Sempre filmando com o pensamento centrado na perspectiva de quem vai ver as imagens.
Hitchcock reuniu em torno de si um grupo de técnicos muito competentes e com os quais desenvolveu uma empatia e uma familiaridade importantes. Eles sabiam o que ele queria. Ele sabia o que podia esperar deles e em que medida eles podiam ajudá-lo a construir um projecto cinematográfico.
Depois de 1963, Hitchcock começou a ter dificuldades em superar o seu melhor. Costuma escrever-se que o difícil não é atingir o estrelato mas sim manter uma posição cimeira. Os últimos cinco filmes do Mestre constituem uma fase de declínio na sua criatividade e na manifestação do seu poder artístico. Acredito que a sua angústia nesses anos fosse como a de alguém que não quer deixar de ser amado.
François Truffaut, célebre cineasta francês, escreveu algumas linhas na edição definitiva do seu livro “Hitchcock/Truffaut” (publicada em 1983). Linhas sobre os anos derradeiros da vida de Hitchcock. E sobre a sua amargura e tormento mediante o declínio da sua popularidade e poder.
Afinal todos gostamos de ser aclamados com sucesso. Para um artista, a necessidade do aplauso do seu público torna-se imperiosa. Dizem que é uma droga que vicia. Não é com indiferença que um realizador sente o afastamento das audiências. Muito menos um realizador sensível como Hitchcock que ofereceu a sua vida ao Cinema.
Recordo-me dos dias em que tinha aulas de piano com uma amável e delicada senhora. Estudava a lição e tocava razoavelmente a partitura. Quando me saía airosamente, logo ele me dizia: “Muito bem! Vejo que estudaste! Tocaste bem! Consegues tocar uma segunda vez tão bem assim?”
Meus amigos, se a boa impressão causada quase não tinha máculas, o meu receio de errar era maior e o peso da responsabilidade duplicava. Sim. Tinha estado na véspera a estudar até às 2 da Manhã. Mas era preciso que isso se notasse. Que o meu esforço fosse evidente. Que aquela senhora gostasse cada vez mais de mim e acreditasse no meu talento. Tocava uma segunda vez. Mas os dedos tremiam-me, o medo do insucesso se não era visível, era bastante limitador. Os dedos tacteavam as teclas e eu parecia não ver nada na pauta. Começava a transpirar e os próprios dedos ficavam humedecidos e humedeciam as teclas. Acabava sem glória ou interrompia a interpretação desistindo de um esforço que se revelava infrutífero.
Então pensava: Como será tocar perante uma plateia com milhares de pessoas? Se me atrapalhava e afligia na presença de uma senhora tão meiga e compreensiva, alguma vez seria capaz de aceitar o facto de estar a ser ouvido pelos outros?
Na verdade, um momento de glória acontece a muitas pessoas. Difícil é conviver continuadamente com a glória sem perder a segurança e a estabilidade emocional. É que o excesso de orgulho pode corromper as qualidades pessoais. E o medo do fracasso pode asfixiar a acção de um criador.
Hitchcock sempre conhecera o sucesso e o insucesso. Mas nunca o seu nome brilhou tão intensamente como nos primórdios da década de 60. Desde então, Hitchcock começou a competir consigo mesmo. Precisava responder às expectativas das pessoas. Surpreender, abismar crescentemente as audiências. Mas ele começava a estar velho, cansado e doente. Calculo que se sentisse inseguro. Trabalhou até poder e só desistiu de trabalhar meses antes da sua morte.
O medo do fracasso também terá corroído a sua alma. O medo… Que ele sempre conhecera tão bem. Que sempre sentira na pele. E conseguira transpôr com virtuosismo para o universo dos filmes e para a linguagem cinematográfica.
Quem lhe poderá levar a mal? O homem que, desde pequeno, aprendera a familiarizar-se com a solidão e o isolamento, fintara o seu destino. Era uma lenda viva do Cinema apesar do seu aspecto rotundo e de uma timidez aguda. Quem gosta de perder o amor dos outros? Quem não tem medo do fracasso? Quem não tem medo de desiludir?






















